O El Niño de 2026 deve atingir seu ponto máximo em dezembro e pode entrar na lista dos episódios mais intensos registrados desde pelo menos 1950, segundo o boletim divulgado nesta quinta-feira (8) pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), a agência de clima da ONU.
A probabilidade de o fenômeno seguir ativo até fevereiro de 2027 é de praticamente 100%, com efeito direto sobre temperaturas, padrões de chuva, economias e ecossistemas em todo o planeta.
Projeção supera o recorde de 2015-2016
O índice que mede a anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial centro-oriental, coração do fenômeno, saltou de 1,6 °C acima do normal em junho para 2,5 °C em agosto. Para o trimestre de outubro a dezembro, a projeção é de cerca de 3,7 °C acima do normal.
Seria o valor mais alto desde o início das observações, muito acima dos 2,6 °C alcançados em 2015-2016, até aqui a referência de intensidade máxima. A previsão reúne o consenso de 13 centros meteorológicos nacionais e internacionais de primeiro nível.
“El Niño se consolidou e está se fortalecendo rapidamente”, afirmou a diretora da OMM, a argentina Celeste Saulo. Ela fez uma ressalva técnica: o fenômeno não acrescenta calor novo ao planeta, apenas libera o que já está armazenado no oceano. “As águas que alimentam o El Niño apresentam as temperaturas mais altas já registradas. Em outras palavras, há mais calor que pode ser liberado.”
Semanas antes do alerta, o Pacífico já havia batido um recorde diário de calor na faixa de monitoramento do fenômeno, antecipando a força do episódio atual.
Por que o alerta importa para o Brasil
O El Niño é o aquecimento anômalo da superfície do Pacífico equatorial central e oriental, capaz de reorganizar ventos, pressão atmosférica e regimes de chuva no mundo inteiro. Ocorre a cada dois a sete anos, dura de nove a doze meses e alterna com a La Niña, com períodos neutros entre os dois.
Efeito desigual entre as regiões
No Brasil, o padrão histórico do fenômeno costuma se inverter por região: mais chuva e risco de enchentes no Sul, enquanto Norte e Nordeste enfrentam estiagem e queda na disponibilidade hídrica. Fora do país, os danos já aparecem na América Central, onde animais e plantações estão morrendo em razão da seca.
Rastro nos recordes de temperatura
O episódio anterior ajudou a empurrar 2023 ao posto de segundo ano mais quente da série histórica e 2024 ao recorde absoluto, cerca de 1,55 °C acima da média pré-industrial de 1850-1900. Como o aquecimento associado tende a se manifestar depois do pico, o reflexo do episódio atual nas médias globais deve demorar a aparecer — ainda que agosto de 2026 já tenha dado um sinal: a temperatura média global do mês atingiu 16,96 °C, empatando com julho de 2023 como o mês mais quente já registrado, segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia.
O fenômeno havia sido confirmado oficialmente em junho, quando a dúvida sobre um possível “super El Niño” começou a circular entre climatologistas. Em setembro, pesquisadores do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago projetaram que esse “super El Niño” poderia provocar até 451 mil mortes a mais no mundo todo entre junho de 2026 e fevereiro de 2027.