Um novo El Niño está em formação no Oceano Pacífico, e a Organização Meteorológica Mundial (OMM) estima 90% de probabilidade de que o fenômeno se consolide ainda em 2026 — possivelmente com intensidade forte.
O cenário reacende o alerta para um Brasil que segue sem uma política estruturada de adaptação a eventos climáticos extremos, a despeito das tragédias recentes.
Se confirmado, o fenômeno deve intensificar as chuvas no Sul e aprofundar a seca no Norte e no Nordeste — o mesmo padrão que contribuiu para as inundações históricas no Rio Grande do Sul em 2024.
Como o fenômeno se forma — e o que esperar
O El Niño é identificado quando a temperatura da superfície do Pacífico equatorial fica ao menos 0,5 °C acima do normal por pelo menos três meses consecutivos. Desde fevereiro, as medições já apontam essa elevação na região.
O fator decisivo para os impactos no Brasil será onde ocorrerá o maior aquecimento oceânico. Em meados de maio, temperaturas abaixo da superfície do mar já apareciam mais de 6 °C acima da média — sinal de que o fenômeno pode ganhar força rapidamente.
Para o Norte, especialmente na Amazônia, e partes do Nordeste, a previsão é de agravamento da seca durante o inverno e início do verão, com risco elevado de queimadas. No Sul, o cenário é inverso: volume maior de chuvas e risco de enchentes.
Governos em alerta, investimentos estagnados
Santa Catarina decretou estado de alerta climático válido até novembro. Mas dados do Sistema Integrado de Planejamento e Gestão Fiscal (Sigef-SC) mostram que, em 2025, apenas 15,4% dos recursos da Secretaria de Proteção e Defesa Civil foram efetivamente executados. Para obras de barragens, o índice chegou a meros 0,66% do total empenhado.
O Cemaden enviou nota técnica ao governo alertando para a possibilidade de um El Niño forte ou muito forte entre 2026 e 2027 — os mesmos dados que sustentam o atual estado de alerta no país. Saiba mais sobre o alerta técnico do Cemaden.
No Congresso Nacional, sessões discutem os efeitos do fenômeno sobre a população, a economia e o agronegócio. A próxima safra de grãos está estimada em 356 milhões de toneladas — alta de 1,2% sobre o ciclo anterior —, mas condições climáticas adversas podem colocar essa projeção em risco.
Adaptação permanente, não reativa
Para especialistas em gestão de riscos, a preparação para eventos extremos não deveria depender da confirmação de um fenômeno específico. O debate público, porém, segue concentrado em prever o que vai acontecer — seca, chuva ou enchente — em vez de construir capacidade permanente de resposta.
A OMM formalizou a previsão recentemente, e o governo federal criou um gabinete de crise climática para coordenar respostas preventivas — mas especialistas avaliam que a estrutura ainda está distante de uma agenda permanente de adaptação. Entenda o que o gabinete de crise climática prevê.
O Judiciário também passou a pressionar. O STF intimou a União e os estados da Amazônia Legal a apresentar planos concretos de combate a incêndios antes do pico do fenômeno — sinalização de que a Corte passou a cobrar o que o Executivo não garante voluntariamente. Veja a decisão do STF sobre o plano antiincêndios.
Outro ponto crítico é a comunicação de risco. A proliferação de análises meteorológicas nas redes sociais — produzidas por consultorias privadas e influenciadores com interesses variados — expõe a população a informações conflitantes, dificultando respostas adequadas da sociedade civil diante dos alertas oficiais.
