A Amazônia perdeu 3.335 km² de floresta entre agosto de 2025 e julho de 2026, a menor área desde o início das medições do Prodes, em 1988. O Cerrado também chegou ao piso de sua série, iniciada em 2001, com 5.516,69 km² de vegetação nativa suprimida.
Os dados do Inpe foram apresentados nesta sexta-feira (16) pelo governo federal no Palácio do Planalto, em Brasília. Na comparação com o ciclo anterior, o desmatamento caiu 41,8% na Amazônia e 23,8% no Cerrado, bioma em que a lei ainda permite desmatar mais.
Quatro anos de recuo seguido
O resultado consolida uma trajetória de quedas. Em 2022, a área desmatada na Amazônia havia chegado a 11.594 km²; desde então, o número caiu ano após ano, com redução acumulada de 71,2%. No Cerrado, o pico recente foi em 2023, com 11.012 km², e o recuo em quatro anos chega a 48,4%.
Em maio, o relatório do MapBiomas já indicava desmatamento abaixo de 1 milhão de hectares no país pela primeira vez desde 2019, com o Cerrado concentrando 55% das perdas.
A virada coincide com a retomada, em 2023, do PPCDAm, plano federal contra o desmatamento na Amazônia Legal. Criado em 2004, ele articula ações de vários ministérios e esteve por trás da forte queda registrada até 2014. Há planos semelhantes para os demais biomas, incluindo o Cerrado.
Um dos instrumentos que elevaram o risco para quem desmata ilegalmente são os embargos remotos: a área derrubada sem autorização é identificada por satélite e bloqueada sem operação de campo, e o dono fica impedido de usá-la ou de vender o que ali for produzido. Pesam ainda a atuação dos estados, o aumento das autuações do Ibama e o crédito rural mais difícil para propriedades com desmate irregular.
Na cerimônia de divulgação, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, atribuiu a redução gradual a três “pilares”: seguir a ciência, a participação da sociedade, por meio de conselhos estaduais e municipais, e o pacto federativo, com prefeitos e governadores aderindo ao plano de combate ao desmatamento, independentemente de partido. “Quantas vezes não ouvimos essa frase de que é impossível obter o desmatamento zero?”, disse. A ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, também destacou a coordenação entre ministérios, estados e municípios.
O governo federal acrescenta à lista de ações que, na sua avaliação, contribuíram para a queda o fortalecimento das operações da Polícia Federal, com quase 8 mil inquéritos instaurados sobre crimes ambientais entre 2023 e 2026, o aumento do investimento no ICMBio, a criação de 18 unidades de conservação e a homologação de 20 terras indígenas.
O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, avaliou que o agronegócio exportador é o principal beneficiário da redução, diante da exigência crescente de parceiros comerciais por produção sustentável. Ele citou a União Europeia, que proíbe a entrada de produtos oriundos de áreas desmatadas, e afirmou que os números são “um passaporte” para a comercialização dos produtos brasileiros.
Cerrado esbarra no desmatamento autorizado
O ritmo mais lento no Cerrado tem explicação na lei. O Código Florestal permite suprimir parte da vegetação de imóveis rurais com autorização do órgão ambiental estadual, e essa fatia é bem maior no Cerrado do que na Amazônia. Boa parte da perda no bioma ocorre, portanto, dentro do limite legal, fora do alcance de multas e embargos.
Frear esse tipo de supressão depende de incentivos econômicos para que o produtor mantenha a vegetação nativa e de regras mais rígidas nas autorizações concedidas pelos estados.
Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, avalia que os números mostram ser possível ampliar a produção sem destruir mais vegetação. “A floresta, quando ela é preservada, ela traz uma série de ativos para o país, na agenda de clima e na agenda econômica”, disse ao g1.
Pará lidera, mas reduz área desmatada em 45%
Entre os estados amazônicos, o Pará segue com a maior área desmatada: 1.130 km², ou 33,9% do total do bioma. Ainda assim, o número é 45,3% menor que os 2.064 km² do ciclo anterior.
Mato Grosso (849 km²) e Amazonas (525 km²) vêm em seguida, com quedas de 46,7% e 46,4%, respectivamente. Os três estados somam cerca de 75% de todo o desmatamento na Amazônia no período.
Roraima foi a exceção, ao passar de 285 km² para 286 km², alta de 0,4%. O sinal já aparecia nos dados do Imazon, que mostraram recuo de 36% no calendário do desmatamento até março, com Roraima como único estado em alta. Acre (252 km²), Rondônia (149 km²), Maranhão (128 km²), Amapá e Tocantins (8 km² cada) completam a lista.
Prodes e Deter medem coisas diferentes
O Prodes é a taxa oficial: usa imagens de maior resolução para mapear o corte raso em áreas a partir de 6,25 hectares, sempre de agosto a julho. O Deter, também do Inpe, emite alertas diários para orientar a fiscalização, e seus números costumam ficar abaixo da taxa do Prodes.
O ciclo anterior havia terminado em alta de 4% nos alertas do Deter, o que dá ainda mais peso à queda medida agora.