O desmatamento na Amazônia voltou a cair no terceiro mandato de Lula, e a diferença em relação aos quatro anos de Jair Bolsonaro tem escala florestal: 690 mil árvores por dia.
É quanto a floresta deixou de perder, em média, sob o governo atual — resultado de análise da InfoAmazonia publicada pelo ((o))eco a partir dos dados do Prodes, o sistema do Inpe que calcula a taxa oficial de desmatamento.
Como se chega a 690 mil árvores por dia
O cálculo parte da área derrubada em cada governo, multiplicada pela média de 565 árvores por hectare de floresta na Bacia Amazônica — metodologia do PlenaMata, baseada em estudo assinado por mais de 100 cientistas. O total estimado é então dividido pelos dias de cada período.
Em área desmatada, a curva conta a mesma história. Nos dois primeiros mandatos de Lula, a taxa caiu 62%. Sob Bolsonaro, subiu 54% e chegou a 11,5 mil km², alta de 53% sobre 2018. No mandato atual, já recuou 51% na comparação com 2022. Em agosto, dados do Imazon já apontavam queda de 23% no último ciclo, o menor volume desde 2013.
Uma política desmontada e recriada
Quando assumiu pela primeira vez, Lula herdou a maior taxa do século: 27,7 mil km². Foi nesse cenário que nasceu, em 2004, o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). Até 2012, a perda de floresta caiu 83% e bateu o piso da série do Prodes, 4.571 km².
Criação de unidades de conservação e terras indígenas, reforço ao Ibama e ao ICMBio e investimento em monitoramento sustentaram a queda. Entre 2012 e 2018, com o impeachment de Dilma Rousseff e o governo Temer, a derrubada voltou a subir de forma contida — 7,8 mil km² em 2016, o pior ano do intervalo.
Em abril de 2019, já sob Bolsonaro, o PPCDAm foi descontinuado e formalmente extinto. A aposta passou a ser o Conselho Nacional da Amazônia Legal e o uso das Forças Armadas em operações de Garantia da Lei e da Ordem. Especialistas questionaram à época entregar a militares um trabalho de campo que era do Ibama e do ICMBio, órgãos com conhecimento territorial e mandato de proteger floresta e povos tradicionais.
A meta de 2030 e o calendário eleitoral
A nova fase do PPCDAm, lançada em 2023, fixou um alvo mais ambicioso: zerar o desmatamento ilegal até 2030. Estudo do Imazon estima em 703 km² por ano a área de derrubada legal que ainda poderia ocorrer nesse cenário.
Mantida a média de redução de 2023 a 2025 — 1.954 km² ao ano —, esse patamar seria alcançado em 2028. No ritmo mais lento do último ano, 787 km², só em 2032. A definição fica, na prática, com o resultado das eleições. A área de 2026 ainda é preliminar, mas os alertas do Deter indicam taxa possivelmente abaixo do recorde de 2012. Em junho, Lula já havia transformado esses números em argumento político para rebater acusações dos Estados Unidos sobre a Amazônia.
O fogo é a próxima variável
Com El Niño e risco de seca histórica, a taxa baixa de desmatamento funciona como redução de danos: no Brasil, queimada e derrubada andam juntas. Em 20 dias de setembro, o Inpe detectou menos de 8 mil focos de calor, contra média histórica de 25 mil para o período.
“Na Amazônia e no Nordeste, a assinatura do El Niño é de seca prolongada. Quando ocorrem simultaneamente ondas de calor e secas, o risco de incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal dispara vertiginosamente”, explica o climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden. O alerta não é novo: na temporada 2024/2025, o avanço dos incêndios elevou os alertas de desmatamento em 4%.