Política

TSE manda suspender site que pagava criptomoeda por propaganda pró-Flávio Bolsonaro

Decisão de Estela Aranha também determina remoção dos posts e quebra de sigilo das contas que distribuíram os tokens
TSE suspende site de criptomoeda por propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro

Divulgar conteúdo que pede voto para Flávio Bolsonaro (PL) rendia tokens trocáveis por dinheiro. O arranjo durou poucos dias: o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mandou suspender o site que vendia as criptomoedas e encerrar a distribuição dos ativos.

A decisão é da ministra Estela Aranha e atende a pedidos tanto da coligação do presidente Lula (PT), que enxerga abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação na campanha batizada de “Brasil 22 Token (B22)”, quanto da própria campanha de Flávio Bolsonaro, que nega qualquer vínculo com o esquema e também pediu a suspensão do site.

Token, voto 22 e crianças de Uganda

A iniciativa foi lançada na terça-feira, segundo a Folha de S.Paulo, e amarrava duas promessas em um só pacote: apoio ao voto 22 e dinheiro para que as HypersKids terminassem de construir uma casa em Kampala, capital de Uganda. O próprio site define o projeto como “um movimento que une” as duas causas.

A vitrine da campanha era o perfil @hyperskidsafrica, de crianças ugandenses, com 12,9 milhões de seguidores e listado na página de criptomoedas como “parceira oficial”. Em uma das publicações, crianças aparecem dançando com a camiseta da campanha enquanto o texto incentiva a compra do $B22 e cita Flávio Bolsonaro, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e Pablo Marçal (PRTB) — que teve a candidatura à Presidência barrada pela Justiça e hoje apoia Flávio. A defesa de Flávio afirma ter identificado, por registros públicos de blockchain, a transferência de 120 milhões de unidades do token para esse perfil, que em seguida publicou o vídeo com as referências eleitorais.

A legislação eleitoral veda oferecer vantagem econômica a quem divulga propaganda eleitoral na internet e proíbe que empresas doem recursos a campanhas e candidatos, inclusive em criptomoedas. Três especialistas ouvidos pelo g1 apontaram indícios de violação dessas regras no esquema do Brasil 22 Token, e a própria relatora do caso chegou a conclusão semelhante: para Aranha, o site extrapola a manifestação política espontânea de apoiadores e configura um mecanismo estruturado de concessão de vantagem econômica associado à disputa presidencial, com risco à igualdade entre os candidatos.

Remoção de posts e quebra de sigilo

Além da suspensão imediata do domínio brasil22token.com — determinada junto às empresas de infraestrutura Spaceship e Cloudflare —, Aranha determinou a retirada de conteúdos ligados à campanha em plataformas como X, Instagram, Telegram e WhatsApp, a proibição de nova oferta, promessa ou distribuição dos tokens B22 e a preservação das postagens e dos dados dos envolvidos. A decisão incluiu ainda a quebra do sigilo dos dados cadastrais das contas de onde partiram as criptomoedas — o que permite rastrear a origem dos ativos distribuídos — e a exigência de que provedores de aplicação e corretoras de ativos virtuais identifiquem os responsáveis. As duas liminares, uma a pedido da coligação de Lula e outra da própria campanha de Flávio, foram submetidas à apreciação do plenário do TSE.

A ação de investigação judicial eleitoral (AIJE) foi protocolada pela equipe jurídica da coligação do petista na sexta-feira (9), no mesmo bloco de representações que trouxe também uma queixa contra a Meta por queda no alcance de posts pró-Lula. No mesmo dia, a campanha de Lula também levou o caso à Procuradoria-Geral Eleitoral, com uma denúncia específica sobre a distribuição dos ativos virtuais em troca de propaganda política.

Campanha de Flávio nega autoria do site

Procurada na sexta-feira (9), a campanha de Flávio Bolsonaro inicialmente não respondeu. Horas depois, porém, segundo a Agência Brasil, a campanha se manifestou dizendo desconhecer a autoria do site e informou que vai tomar todas as medidas judiciais — nas esferas eleitoral, cível e criminal — para derrubar a página. Nesse mesmo dia, a equipe do candidato também protocolou no TSE uma ação própria sobre o caso, alegando ter tomado conhecimento do esquema pela imprensa e negando qualquer vínculo, contratação, despesa eleitoral ou relação financeira com os criadores do token — além de apontar uso indevido de seu nome, de sua imagem e do número de campanha. Foi esse pedido, analisado ao lado do da coligação de Lula, que levou Aranha a conceder as duas liminares. O próprio candidato negou ainda ter contratado perfis para divulgação de conteúdo ou produtos de campanha. Os responsáveis pelo Brasil 22 e pelo perfil das crianças ugandenses, por sua vez, seguem sem se manifestar. O espaço segue aberto.