Política

Coligação de Lula aciona TSE contra Meta por queda no alcance de posts

TSE dá à Meta 48h para explicar restrições a posts de Lula; pacote de ações também mira esquema de criptomoeda e vídeo editado de Marçal
Fachada do TSE com símbolo da Meta projetado, simbolizando a coligação de Lula contra Meta

A coligação “Brasil Pronto pra Mais”, que reúne PT, PC do B, PV, PSB, PDT, Psol e Rede, levou ao Tribunal Superior Eleitoral uma bateria de representações sobre o 2º turno das eleições de 2026.

No centro do pacote está uma queixa contra a Meta: os partidos afirmam que publicações favoráveis ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ou críticas ao candidato do PL, Flávio Bolsonaro, sofreram queda — e em alguns casos zeramento — nas interações.

A coligação quer que o tribunal obrigue a empresa a dar tratamento isonômico na distribuição dos conteúdos. Na avaliação preliminar do pedido de urgência, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do TSE, determinou neste sábado (10) que a Meta apresente em até 48 horas explicações técnicas sobre a entrega das publicações de Lula, com indicação de datas, horários, sistemas afetados e se as medidas foram automatizadas ou tomadas por pessoas.

Segundo o ministro, a prova reunida pela coligação é majoritariamente indireta — baseada em relatos de usuários, reportagens e estudos de entidades civis —, o que não a desqualifica, mas torna necessária instrução técnica antes de decidir sobre a urgência do pedido. “Os fatos narrados ocorrem em ambiente que somente a representada controla”, escreveu Bellizze. Entre os pontos que a Meta terá de esclarecer estão eventuais reduções no alcance e na distribuição de publicações, anomalias nas visualizações de vídeos publicados em 7 de outubro, a justificativa para a desativação da conta de anúncios da campanha de Lula em 23 de setembro e se identificou e tomou providências contra uma rede de 255 perfis automatizados no Instagram.

A coligação também alega que essa rede de 255 perfis geridos por inteligência artificial alcançou 58 milhões de visualizações em um mês, simulando apoio a Flávio Bolsonaro e publicando críticas a Lula, ao PT e à primeira-dama Janja Lula da Silva. Segundo os partidos, dos 64 conteúdos sintéticos identificados pelo projeto VigIA, da Agência Lupa, entre 1º e 5 de outubro, 61 continuavam no ar em 7 de outubro — dado que o TSE determinou que a própria Lupa e o Instituto Democracia em Xeque detalhem, também em 48 horas, junto com a metodologia usada no levantamento.

Depois da resposta da Meta, a coligação e a Procuradoria-Geral Eleitoral terão 24 horas cada para se manifestar, antes de o relator decidir sobre o pedido de tutela de urgência; Bellizze decretou sigilo sobre os documentos e dados técnicos apresentados no processo. Procurada pelo Poder360, a Meta classificou as acusações como “simplesmente falsas” e disse que parte dos problemas técnicos citados não afetou exclusivamente o Brasil ou contas específicas, afirmando estar “comprometida com a isonomia do uso das [suas] plataformas por todos”.

A representação, segundo o PT, reúne reclamações que já circulavam publicamente, feitas por diferentes usuários que relataram perda de engajamento em posts com esse perfil político. Para a coligação, restrição injustificada de alcance afeta o equilíbrio da disputa. Não é a primeira vez que a empresa vira alvo da campanha: duas semanas antes, os partidos já haviam pedido a reativação, em até seis horas, da conta de anúncios do presidente, suspensa a dez dias do 1º turno — desativação que o TSE agora também cobra da Meta justificar.

Token B22 e pedido de cassação

Na quinta-feira (8), a coligação entrou com ação de investigação judicial eleitoral contra Flávio Bolsonaro, seu candidato a vice, Alfredo Gaspar, o empresário Pablo Marçal e os responsáveis pelo Brasil 22 Token (B22), por suspeita de abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação.

Pela ação, o site do token entrou no ar em 6 de outubro oferecendo 30 mil unidades da moeda virtual às primeiras mil pessoas que divulgassem o projeto nas redes sociais — ou seja, pagamento em criptomoedas por propaganda eleitoral. Em transmissão ao vivo com Nahuel Medina, o idealizador Kevim Flores afirmou: “A gente vai conseguir com que várias pessoas que votaram no 13 compartilhem em suas redes sociais o B22”.

A peça cita ainda o perfil estrangeiro @hyperskidsafrica, com 12,9 milhões de seguidores, que teria recebido 120 milhões de tokens e publicado um vídeo de crianças ugandenses de camiseta do projeto pedindo votos no 22. Os partidos pedem a cassação do registro ou do diploma de Flávio e Gaspar, inelegibilidade de oito anos para eles e para Marçal, suspensão do domínio do token e multa diária de R$ 50 mil.

Vídeo editado e as outras frentes

Outra ação questiona um vídeo publicado por Marçal, que declarou integrar a campanha de Flávio. A peça simula um telejornal e usa uma gravação de 2016 de conversa entre Lula e o então prefeito do Rio, Eduardo Paes. Na montagem, a frase “é um bando de filho da p*, Eduardo” aparece como resposta a um comentário de Paes sobre procuradores do Ministério Público, seguida do letreiro “ELE NÃO GOSTA DE EVANGÉLICOS”.

A coligação sustenta que a edição distorce o diálogo original, no qual Lula teria dito “é uma coisa absurda”. A legenda da publicação era “vídeo de antes de existir IA”. O pedido é de remoção em três horas, proibição de republicação, multa de R$ 30 mil e envio dos autos à Procuradoria Geral Eleitoral. É a quarta ação contra o influenciador em pouco mais de uma semana, apoiada em decisão do ministro André Mendonça, de 3 de outubro.

Uma lista que cresce a cada dia

Os partidos também contestam vídeos feitos por inteligência artificial no TikTok que podem confundir o eleitor sobre o número de urna de Lula, publicações do senador eleito por Santa Catarina Carlos Bolsonaro e do vereador Fernando Emílio dos Santos Machado sobre uma suposta desvinculação do salário mínimo das aposentadorias, e pedem que o WhatsApp avise usuários sobre a falsidade do e-book “Os Podres de Lula”.

O embate em torno de IA vem de antes: já em julho o PT havia acionado o TSE contra um vídeo gerado por IA em que Flávio Bolsonaro aparecia como militar atirando contra facções. Em setembro, a coligação pediu a suspensão da TV Celular, plataforma de vídeos do adversário sem a identificação exigida por lei.