A Nasa pretende lançar entre 2030 e 2031 a nova geração do Grace, o sistema de satélites que rastreia o movimento da água no planeta e hoje alimenta projeções sobre enchentes, secas e os efeitos do El Niño na América do Sul.
O prazo foi informado ao Poder360 por Jason Hyon, chefe de Tecnologia da Diretoria de Ciências e Tecnologia da Terra da agência. A aposta é um único satélite com gravimetria quântica, no lugar da dupla de equipamentos que opera em órbita desde 2018.
Como a gravidade revela água escondida
O Grace (Experimento de Recuperação da Gravidade e Clima) não fotografa a superfície: mede variações no campo gravitacional da Terra para inferir para onde a massa de água se deslocou. Na configuração atual, dois satélites idênticos orbitam separados por cerca de 200 quilômetros e calculam a distância exata entre si com sinais de micro-ondas e tecnologia laser.
Desse arranjo saem dados sobre aquíferos subterrâneos, derretimento de calotas polares e geleiras, nível global dos oceanos, formação de correntes marítimas e volume armazenado em bacias hidrográficas, lagos e rios. Foi por esse caminho que a agência calculou que a Antártica perdeu cerca de 135 gigatoneladas de gelo por ano entre 2002 e 2025, elevando o nível do mar em 0,4 milímetro anual.
Um satélite no lugar de dois
A próxima versão troca o par por um equipamento só. O sensor será uma nuvem de átomos resfriada a uma temperatura equivalente a -273ºC, que reage a mudanças mínimas de gravidade. Com essa sensibilidade, a gravimetria quântica passa a detectar também variações de densidade no solo, o que abre caminho para mapear recursos minerais, petróleo e gás a partir do espaço.
“Funciona tanto na água quanto no solo. Funciona em qualquer lugar, para qualquer tipo de variação de massa entre a área de pesquisa e a região ao redor”, afirmou Hyon, que citou deslocamentos de massa por terremotos e secas entre os fenômenos rastreáveis. A fala ocorreu no JPL (Jet Propulsion Lab), sede da agência em Pasadena, na Califórnia.
A missão original nasceu em 2002, em parceria com o Centro Alemão de Pesquisa em Geociências, e voltou à Terra em 2017. A substituta, Grace-FO, está em órbita desde maio de 2018.
O que isso muda para o Brasil
Felix Landerer, cientista sênior da Nasa e um dos idealizadores do projeto, resume o limite e a utilidade da tecnologia: ela não antecipa a chuva, mas mede o quanto o terreno já está cheio. “Não podemos prever a chuva, mas medimos o quão cheio e saturado o solo está. Imagine que você tem um balde totalmente saturado e chove por cima. Ele vai transbordar, certo?”, comparou.
Segundo o cientista, nenhum outro recurso em órbita consegue revelar água oculta em grande profundidade — e autoridades sul-americanas poderiam usar esses dados para identificar quais regiões ficam vulneráveis a transbordamentos antes das tempestades. O El Niño, diz ele, produz “um sinal muito forte” justamente porque redesenha o mapa de onde falta e onde sobra água.
O fenômeno já foi confirmado oficialmente pela NOAA em junho, com projeção de mais chuva no Sul e seca prolongada no Norte e no Nordeste. É o padrão histórico do El Niño no país, e ele volta a cobrar resposta institucional: levantamento do mesmo período mostrou que o Brasil segue sem política permanente de adaptação a eventos climáticos extremos, o que reduz o valor prático de qualquer alerta antecipado.
Além do Grace, a agência mantém dezenas de satélites que acompanham oceanos e atmosfera, medindo temperatura da água, altura do mar, precipitação, ventos e ondas.