A Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou nesta terça-feira (2) que há 80% de probabilidade de o El Niño se formar entre junho e agosto de 2026. O fenômeno, que aquece as águas do Pacífico equatorial, deve atingir intensidade pelo menos moderada — com risco real de ser forte.
O alerta chega com o Brasil ainda se recuperando dos estragos do El Niño de 2024. Na última semana, o governo federal criou um gabinete de crise para monitorar os impactos do fenômeno e coordenar respostas preventivas em todo o território nacional.
O que é o El Niño e por que preocupa agora
O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial central e oriental. Parte do ciclo ENSO — que alterna entre El Niño, La Niña e neutralidade —, o evento ocorre a cada dois a sete anos e dura, em média, de nove a doze meses, com pico costumeiro entre o fim de um ano e o início do seguinte.
A maioria dos modelos climáticos analisados pela OMM descarta um El Niño fraco em 2026. A expectativa é de intensidade moderada a forte, o que eleva consideravelmente o risco de eventos extremos — secas severas, chuvas torrenciais e ondas de calor em diversas regiões do planeta.
A probabilidade de 80% citada pela OMM tem base nos mesmos dados que levaram a NOAA a elevar sua estimativa para 82% em meados de maio, impulsionada por seis meses consecutivos de acúmulo de calor abaixo da superfície do Pacífico equatorial.
Impacto no Brasil: norte seco, sul chuvoso e rios voadores em risco
No Brasil, o El Niño tende a intensificar secas no Norte e chuvas no Sul. Mas o risco vai além dessa divisão regional: eventos extremos podem atingir todas as regiões do país, inclusive estados que normalmente não estão no epicentro do fenômeno.
O mecanismo é sistêmico. Secas severas na Amazônia comprometem os chamados rios voadores — massas de umidade que partem da floresta e irrigam o interior do continente. Sem essa circulação, outros estados também enfrentam estiagens mais prolongadas e temperaturas elevadas fora de época.
O sinal de alerta não partiu apenas da OMM. Semanas antes, o Cemaden havia enviado nota técnica à Casa Civil e ao MCTI apontando convergência entre modelos climáticos internacionais para um cenário de El Niño forte ou muito forte — o mesmo risco que a agência da ONU agora torna oficial.
O contexto é ainda mais preocupante no horizonte de longo prazo. Na semana passada, a própria OMM havia projetado 75% de probabilidade de que as temperaturas médias globais entre 2026 e 2030 ultrapassem 1,5°C acima dos níveis pré-industriais — o que amplifica os efeitos de qualquer El Niño que ocorra nesse intervalo.
O Brasil ainda carrega as marcas do ciclo anterior. No Rio Grande do Sul, cidades permanecem em reconstrução. No Norte, um novo período de secas intensas ameaça o equilíbrio hídrico dos rios que formam o núcleo do sistema de águas do país, com risco de estresse hídrico em bacias estratégicas para a geração de energia e o abastecimento urbano.
Para coordenar a resposta, o governo federal criou um gabinete de crise integrado por órgãos federais e instituições de pesquisa. O grupo se reunirá semanalmente para monitorar a evolução do fenômeno e acionar medidas de prevenção e resposta em todo o território nacional.
