A probabilidade de um novo El Niño se desenvolver neste ano supera 90% a partir de setembro, segundo a NOAA, principal agência climática dos Estados Unidos. O fenômeno, que aquece as águas do Oceano Pacífico equatorial e altera o clima em todo o planeta, é considerado praticamente certo para a segunda metade de 2026.
O que ainda não se sabe com precisão é a intensidade: há 25% de chance de episódio forte e outros 25% de probabilidade de El Niño muito forte — quando a temperatura do Pacífico central supera em mais de 2°C o valor normal. Para especialistas do Cemaden, essas estimativas ainda são prematuras demais para serem levadas a sério.
El Niño faz parte do ciclo natural chamado ENOS (El Niño – Oscilação Sul), em que as águas superficiais do Pacífico tropical centro-leste ficam acima da média histórica. O fenômeno foi batizado por pescadores peruanos e equatorianos no século XIX, que notavam o aquecimento das águas próximo ao Natal — daí a referência ao “El Niño” Jesus.
Na década de 1920, o cientista Gilbert Walker identificou que o fenômeno estava ligado a diferenças de pressão atmosférica e mudanças na velocidade dos ventos equatoriais, que alteram as correntes oceânicas responsáveis por regular a temperatura do mar. O estudo sistemático do El Niño ganhou impulso após o episódio intenso de 1982-83.
Impactos desiguais no Brasil
No país, os efeitos variam conforme a região: o Sul recebe mais chuvas, enquanto a Amazônia e o Nordeste enfrentam secas. O centro do Brasil registra maior frequência de ondas de calor. Grandes secas amazônicas coincidiram com anos de El Niño em 1877-79, 1925, 1972-73, 1983, 1986, 1992-93, 1998, 2010, 2015-16 e 2023-24.
Em 2023 e 2024, a combinação de calor e seca intensificou os incêndios na Amazônia e no Pantanal. Mais de 200 botos-cor-de-rosa morreram por estresse térmico. No Rio Grande do Sul, inundações generalizadas ocorreram na primavera de 2023 e no outono de 2024.
Em abril, a Organização Meteorológica Mundial já havia reconhecido a chamada “barreira de previsibilidade da primavera” — limitação técnica que impede projeções confiáveis de intensidade até pelo menos o inverno austral, corroborando a cautela dos cientistas do Cemaden.
Alarmes sem respaldo científico
Pesquisadores do Cemaden alertam que notícias recentes sobre secas severas na Amazônia e no Nordeste, ou chuvas catastróficas no Sul, não têm sustentação em dados científicos confiáveis. O Instituto Internacional de Pesquisa em Clima e Sociedade (IRI) reforça que previsões feitas nesta época do ano apresentam alta incerteza sobre a intensidade do ENOS — e que resultados mais robustos só estarão disponíveis no inverno.
Modelos acoplados de última geração conseguem prever a evolução do fenômeno com meses de antecedência, mas projeções de impacto em prazos maiores acumulam incertezas que podem levar a diagnósticos incorretos. A recomendação dos especialistas é aguardar ao menos julho ou agosto para ter estimativas mais sólidas sobre o que esperar.
Vale lembrar que chuvas intensas e ondas de calor podem ocorrer mesmo sem El Niño — como as secas de 1963 e 2005 na Amazônia e de 2012 no Nordeste, associadas à variabilidade de temperatura no Atlântico tropical Norte, sem qualquer relação com o Pacífico.
O observatório climático europeu Copernicus advertiu que os oceanos globais estavam prestes a bater novo recorde de temperatura em maio — o aquecimento acelerado do Pacífico equatorial que alimenta os modelos preditivos sobre o El Niño em formação e preocupa cientistas do mundo inteiro.
Os riscos de desastres dependem não só da ameaça climática, mas também da vulnerabilidade das populações e das ações preventivas adotadas pelos governos — um lembrete de que adaptação e mitigação importam independentemente da intensidade do fenômeno.
