Esporte

Flamengo leva protesto contra a MP das bets para a camisa diante do Santos

O espaço de R$ 268,5 milhões da Betano virou palanque de campanha do setor enquanto o clube pressiona o STF
Camisa do Flamengo com logo da Betano simboliza o protesto do Flamengo contra bets rumo ao STF

O Flamengo transformou o espaço mais caro do seu uniforme em peça de protesto. Na partida contra o Santos, na Vila Belmiro, pela 29ª rodada do Brasileirão, nesta quinta-feira (8), o retângulo antes ocupado pela Betano trazia a frase “Proibir não é proteger”.

A troca é efeito direto da MP 1.394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 25 de setembro, que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa no país e tirou as plataformas do ar em 6 de outubro.

Do patrocínio recorde ao vazio no uniforme

O acordo com a Betano, firmado em agosto de 2025 e com prazo até dezembro de 2028, era o maior do futebol brasileiro: cerca de R$ 268,5 milhões por ano. Com a MP em vigor, o patrocínio master perdeu exatamente aquilo que justificava o valor — a exposição da marca.

A frase que ocupou o lugar da logomarca não é criação do clube carioca. Ela integra campanha da ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias) e do IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável), entidades que representam o setor e defendem a manutenção do mercado regulado, com verificação de idade, autoexclusão e restrições à publicidade.

O argumento das associações é que barrar as plataformas regulamentadas não encerra as apostas: empurra o usuário para sites clandestinos. A mesma mensagem já havia circulado nas placas de publicidade do MorumBis, no jogo entre São Paulo e Santos de 2 de outubro — o primeiro depois da publicação da medida provisória —, e voltou a aparecer em Atlético-MG e Red Bull Bragantino.

O protesto rubro-negro também expõe o tamanho do buraco financeiro: as casas de apostas injetaram R$ 1,1 bilhão em patrocínios nos 20 maiores clubes do país em 2025, receita que desaparece do dia para a noite. Segundo levantamento da Sports Value, o setor respondeu por 34% das receitas de marketing desses times, de um total de R$ 3,2 bilhões.

A queda de braço no Supremo

Fora do campo, a camisa é só um dos flancos. A ANJL e o IBJR pediram ao STF a suspensão da MP ou a ampliação do prazo de transição em seis meses, em ação relatada pelo ministro Luiz Fux. A disputa começou dias depois da assinatura da medida, e o Flamengo entrou nos processos como amicus curiae, condição que lhe permite apresentar argumentos à Corte.

Na terça-feira (6), a AGU (Advocacia Geral da União) pediu a Fux que mantivesse a proibição na íntegra. Sustenta que a regulamentação anterior não conteve os prejuízos sociais e financeiros das apostas, que as empresas não têm direito adquirido às regras antigas e que cabe à União definir quais loterias podem operar no Brasil.

O movimento do Flamengo soma-se ao de outros clubes: São Paulo, Ponte Preta, Guarani, Portuguesa e Vitória pediram até um ano de adaptação, alertando para risco de paralisação do Brasileirão. Botafogo, Cruzeiro, Fluminense e mais 14 times também acionaram a Corte, assim como a Abert, em nome das emissoras de rádio e TV.

Improviso nas camisas

Desde 6 de outubro, o tabuleiro mudou. Na Série B, o Sport trocou a Betnacional por um patrocínio pontual da plataforma de fotografias Banlek, o Athletic passou a anunciar a própria loja oficial e o Goiás entrou em campo sem patrocinador master. Antes da proibição, clubes da Série A já havia divulgado uma nota conjunta intitulada “O fim do futebol brasileiro”. A MP ainda depende de análise do Congresso Nacional.