Economia

Bets injetaram R$ 1,1 bilhão nos 20 maiores clubes do Brasil em 2025 e agora ameaçam sair

Casas de apostas avisaram os times que podem encerrar contratos se o governo proibir o setor; no São Paulo, elas bancam 73% do patrocínio
Skyline de São Paulo ao amanhecer simboliza a dependência do patrocínio de bets nos clubes de futebol

As casas de apostas pagaram R$ 1,143 bilhão em patrocínios aos 20 clubes brasileiros de maior receita em 2025 — cerca de 36% de tudo o que esses times arrecadaram com marketing, segundo levantamento da consultoria Sports Value.

Esse dinheiro entrou na zona de risco: as bets já comunicaram aos clubes que patrocinam que os contratos podem ser encerrados caso o governo proíba a operação do setor no país.

Um mercado que dobrou em três anos

A média de 36% esconde extremos. No São Paulo, as casas de apostas bancaram 73% de tudo o que o clube arrecadou com patrocínios — praticamente três de cada quatro reais desse caixa saem de um único setor.

A receita de marketing reúne os valores obtidos com patrocínios e outras ações comerciais, e foi justamente ela que disparou na era das bets: os 20 maiores clubes do país somavam R$ 1,426 bilhão nessa conta em 2022 e chegaram a R$ 3,166 bilhões em 2025.

A porta se abriu em 2018, quando a legislação autorizou as apostas de quota fixa, modalidade em que o apostador já sabe quanto pode ganhar no momento em que aposta. Desde então, as marcas do setor passaram a aparecer com frequência crescente entre os patrocinadores do futebol brasileiro.

Para Amir Somoggi, diretor da Sports Value, em entrevista ao g1, as bets colocaram no mercado valores elevados e, em alguns casos, acima do que outras empresas estavam dispostas a pagar aos clubes.

Do lado de quem paga a conta, o retrato é outro: as bets tiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2025.

O risco vai além do espaço na camisa

A reação foi rápida: avisados pelas casas de apostas de que mudanças nas regras poderiam levar à revisão dos patrocínios, clubes e federações divulgaram um manifesto em defesa da manutenção do mercado regulado de apostas.

O motivo da pressa é contábil. Parte dessa receita já foi gasta antes de entrar, por meio da antecipação de recebíveis: o clube leva o contrato assinado ao banco, usa o papel como garantia e recebe o dinheiro adiantado, pagando juros.

“Os clubes que estão mais endividados e dependem muito das bets, como Corinthians e São Paulo, vão ao banco com o contrato assinado com a casa de apostas, usam esse contrato como garantia para antecipar os recebíveis e recebem o dinheiro antes, pagando juros bancários”, afirmou Somoggi.

Se o contrato cai, o time perde uma receita já prevista no orçamento e pode continuar com compromissos financeiros assumidos com base nesse dinheiro.

A conta final depende de quem ocupar o espaço vago. Bancos, seguradoras, empresas de cartão de crédito, alimentos e montadoras têm capacidade financeira para investir no futebol, mas a substituição não seria imediata nem pelo mesmo preço, já que foram as bets que elevaram os valores dos espaços comerciais. Na Europa, a saída das casas de apostas do futebol aconteceu de formas diferentes. E a ameaça de proibição não surge isolada: meses antes, o governo já havia endurecido o discurso contra o setor ao anunciar o bloqueio de recursos de bets ilegais que movimentam apostas de 25 milhões de brasileiros.