Meio ambiente

Gato-mourisco entra na lista de quase ameaçados após avaliação estimar 13 mil adultos

Reavaliação da IUCN derruba a ideia de que o felino era comum e descarta a Amazônia como refúgio seguro
Gato-mourisco quase ameaçado pela IUCN é fotografado em floresta amazônica, que deixou de ser refúgio seguro

O gato-mourisco deixou de ser tratado como um felino comum. A espécie, que ocorre do México ao sul do Brasil e à Argentina, passou de “pouco preocupante” para “quase ameaçada” na Lista Vermelha da IUCN, com população global estimada em cerca de 13 mil indivíduos adultos.

A reavaliação foi conduzida por Tadeu de Oliveira, copresidente do Grupo de Especialistas em Felinos da IUCN, e se apoiou em dados de monitoramento reunidos em toda a área de ocorrência do animal — não na impressão de abundância que o acompanhava.

Por que um felino visível não é um felino abundante

Pesando até cerca de 7 kg, o jaguarundi caça de dia e circula por savanas, florestas e áreas abertas, incluindo paisagens degradadas. Essa visibilidade alimentou por anos a percepção de que a espécie estava em segurança.

“Se você tem uma floresta que vai ficando parecida com uma savana, ela vai reproduzir o habitat ideal para a espécie”, explica Oliveira. “Não é o habitat favorável, mas vai permitir que ele esteja ali.”

Quantificados, os registros apontaram o contrário: o gato-mourisco está entre os felídeos menos abundantes na maior parte de sua distribuição, com exceção de algumas localidades do México e do Brasil. Pesou também a Amazônia, antes tratada como possível refúgio e hoje descartada nesse papel — entre outras razões, porque cada macho pode usar áreas de até 100 km².

“A ausência da Amazônia como refúgio para a espécie permitiu que ela se enquadrasse nos critérios”, afirma o pesquisador. “O felino realmente não é abundante em lugar nenhum.” No Brasil, a última avaliação nacional, liderada por Flávia Tirelli, já classificava o animal como vulnerável.

Para Tirelli, o caso mostra a necessidade de olhar com mais cuidado para espécies de ampla distribuição e abundância desigual. “Podemos estar perdendo variabilidade genética em determinadas regiões”, alerta.

Proteger floresta pode não ser suficiente

Boa parte do que se sabe sobre o felino vem de dados “incidentais”: registros de armadilhas fotográficas instaladas para monitorar outros animais. “É difícil obter registros dele porque ninguém está estudando especificamente a espécie”, disse Mariam Weston-Flores, coautora da avaliação, à Mongabay Brasil, em reportagem de Xavier Bartaburu.

Por ser oportunista, o animal escapa das receitas usuais de conservação. A avaliação pede a proteção de habitats como Cerrado e Caatinga, mas insiste na conectividade entre essas áreas. Um estudo recente já mostrou que o tamanho de uma área protegida não garante, por si só, a conservação da biodiversidade, e outro apontou que nem áreas preservadas blindam aves tropicais de ameaças externas.

O que os pesquisadores recomendam

A lista inclui galinheiros à prova de predadores, para reduzir abates em retaliação à predação de aves domésticas; passagens subterrâneas sob estradas movimentadas, para manter corredores de fauna; e campanhas de vacinação de cães, que ajudam a conter raiva e sarna.

Como algumas populações já apresentam declínio, os autores pedem monitoramento permanente e direcionado — o gato-mourisco pode estar se aproximando da categoria de vulnerável. “Que as pessoas se baseiem em dados, em informações, e não em percepções”, resume Oliveira.