Saúde

Metade dos indígenas de Oiapoque tem mercúrio acima do limite da OMS, aponta estudo

Garimpo ilegal contamina rios e peixes consumidos por quatro etnias no extremo norte do Amapá
Indígenas de Oiapoque do Amapá face à contaminação: mercúrio em rios amazônicos ameaça povos

Um estudo inédito aponta que metade dos indígenas de Oiapoque, no extremo norte do Amapá, tem mercúrio acima do limite considerado elevado pela OMS — 6,0 mg/kg — no organismo.

A pesquisa foi realizada em 2024 pelo Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé) e o Distrito Sanitário Especial Indígena do Amapá e Norte do Pará (Dsei). Foram analisadas 192 amostras de cabelo das etnias Karipuna, Palikur, Galibi Marworno e Galibi Kali’na.

O garimpo ilegal é apontado como principal vetor: o mercúrio despejado nos rios chega ao prato das comunidades pelo consumo de peixe, alimento base da dieta nativa.

Quem está mais exposto

Os dados revelam disparidade entre gêneros: mais de 60% dos homens apresentaram níveis elevados de mercúrio, contra 38,37% das mulheres. Mas o recorte mascara um risco específico — 31,37% das mulheres em idade fértil têm concentrações acima do limite seguro, o que pode comprometer o desenvolvimento fetal em caso de gestação.

Entre pessoas acima de 50 anos, os índices são mais altos, reflexo de décadas de exposição pelo consumo frequente de peixes. Os riscos associados incluem danos neurológicos, complicações na gestação, tremores, insônia, perda de memória e alterações motoras.

Garimpo como fonte da contaminação

Especialistas apontam que o mercúrio usado nos garimpos ilegais contamina os rios, que abastecem a dieta das comunidades com peixes intoxicados. A cadeia é direta: maior exposição ao longo dos anos equivale a mais acúmulo no organismo.

A mesma região de Oiapoque concentra focos críticos de garimpo ilegal. Em maio, a Polícia Federal destruiu 14 escavadeiras e apreendeu 3 kg de mercúrio no Amapá — exatamente a substância que, segundo o Iepé, está contaminando os rios e a dieta dos povos indígenas da área.

Resultados apresentados às comunidades

Os dados foram divulgados durante a Assembleia da Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM), momento em que as próprias comunidades tomaram conhecimento dos resultados. A presidente da organização, Janina Karipuna, comentou os índices considerados preocupantes.

O Iepé ressalta que levantamentos anteriores já haviam identificado mercúrio no pescado comercializado em feiras e mercados da região Norte, o que amplia o alerta para além das aldeias indígenas.

O estudo reforça a urgência de políticas de saúde pública e de fiscalização ambiental efetiva para conter os impactos do garimpo ilegal. Toda a população que consome peixes da bacia amazônica pode estar exposta ao risco, segundo os pesquisadores.

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