Um estudo publicado em julho na revista científica Landscape Ecology conclui que o tamanho de uma área protegida não é, isoladamente, o fator mais importante para garantir a conservação da biodiversidade florestal.
Conduzida por pesquisadores brasileiros liderados por Lucas Ferrante, da Universidade de São Paulo, a pesquisa propõe um novo modelo, o REBSEN, que avalia áreas prioritárias a partir das necessidades ecológicas de cada espécie, e não apenas da extensão territorial protegida.
Debate antigo, resposta nova
A discussão sobre conservar uma única área extensa ou várias áreas menores mobiliza a Ecologia desde a década de 1970. O estudo, publicado na Landscape Ecology e assinado por cientistas brasileiros, revisita essa pergunta a partir de um ângulo pouco explorado: o das próprias espécies. “Nosso estudo propõe um novo modo de verificar essa questão, considerando o ponto de vista das espécies e não apenas o ponto de vista do ser humano”, explica Ferrante, também vinculado ao Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima).
Os resultados indicam que áreas maiores nem sempre concentram mais espécies. A qualidade da vegetação e a heterogeneidade do ambiente florestal aparecem como fatores decisivos para a manutenção da biodiversidade — e sua perda afeta principalmente as espécies estritamente florestais, que dependem de condições ambientais mais específicas.
O trabalho também contesta a hipótese de que a fragmentação florestal favoreceria a biodiversidade. O aumento no número total de espécies observado após a divisão de florestas em fragmentos menores, segundo os autores, resulta da substituição de espécies florestais por generalistas, capazes de ocupar ambientes degradados. “Não observamos um aumento real da biodiversidade. O que ocorre é a perda de espécies estritamente florestais e a colonização desses fragmentos por espécies generalistas”, afirma Ferrante.
O que muda na gestão de áreas protegidas
As conclusões têm efeito direto sobre a gestão de unidades de conservação na Amazônia, onde atividades como a extração seletiva de madeira costumam ser apresentadas como alternativas econômicas de baixo impacto. Segundo Ferrante, esse tipo de intervenção pode alterar a estrutura da floresta, reduzir a qualidade do habitat e comprometer a permanência das espécies mais exigentes ecologicamente — um estoque de carbono que as unidades de conservação brasileiras acumulam, equivalente a 33 anos de emissões do país, depende justamente dessa qualidade florestal se manter preservada.
Em regiões severamente fragmentadas, como a Mata Atlântica, a preservação da qualidade da vegetação e da diversidade de habitats dentro dos remanescentes é tão importante quanto a extensão das áreas protegidas. O pesquisador destaca ainda que pequenos fragmentos florestais podem abrigar alta biodiversidade quando cercados por matrizes agrícolas mais perenes e de porte arbóreo, o que reduz o efeito de borda sobre o fragmento. Para ele, isso não justifica desmatar áreas pequenas: “Precisamos de política de desmatamento zero”, defende.
A pesquisa chega em um momento em que países avaliam o cumprimento das metas globais de biodiversidade do Marco de Kunming-Montreal, que mede progresso principalmente pela extensão de áreas protegidas — um critério que, segundo os autores do estudo brasileiro, não garante, sozinho, a proteção efetiva das espécies.