O Paraná está prestes a criar sua primeira unidade de conservação pública para proteger os muriquis-do-sul, primata criticamente ameaçado de extinção no estado. O decreto deve ser publicado ainda em 2026, segundo o Instituto Água e Terra (IAT).
A proposta, discutida desde 2016, previa um Refúgio de Vida Silvestre, categoria de proteção integral. Após pressão de proprietários rurais nas consultas públicas deste ano, o IAT recuou e optou por uma Área de Relevante Interesse Ecológico, de uso sustentável.
Da proteção integral ao uso sustentável
A Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) dos Monos de Castro vai abranger 6.282,52 hectares na zona rural do município de Castro, onde vive a maior subpopulação de muriquis-do-sul do Paraná — hoje reduzida a 19 indivíduos, mas que já somou 30 registros. O georreferenciamento da área deveria ser concluído em julho para dar sequência à tramitação interna, segundo o IAT.
A mudança de categoria ocorreu já na primeira consulta pública, quando proprietários e produtores rurais manifestaram receio de perder acesso a crédito rural e segurança jurídica caso a UC fosse de proteção integral. O parecer técnico do IAT cita a “importância fundamental” do apoio popular, mas admite que estudos anteriores do próprio órgão apontavam o Refúgio de Vida Silvestre como a categoria mais compatível com a conservação da espécie.
“Não é o que acontece”, contesta especialista
Para o biólogo Robson Hack, coordenador do projeto de Conservação dos Muriquis no Paraná, a mudança partiu de informações equivocadas espalhadas nas audiências. “Houve uma pressão dos setores econômicos para alteração da categoria, falando que os moradores locais não poderiam mais fazer a criação de gado, que é de pequena escala, que não poderia mais fazer a roça de toco, que é tradicional. O que não é o que acontece num Refúgio de Vida Silvestre”, afirma.
Segundo Hack, a nova categoria desloca o foco da unidade: “o objetivo principal não é mais a proteção de uma espécie ameaçada de extinção e sim o ordenamento territorial, do uso do solo”, pondera o pesquisador.
Genética única sob risco
O muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) é classificado pelo ICMBio como Em Perigo de extinção em nível nacional. No Paraná, a situação é ainda mais crítica: status Criticamente em Perigo e menos de 70 indivíduos, portadores de genes considerados únicos para a espécie. O estado é hoje o único, entre os que abrigam o primata, sem nenhuma unidade de conservação pública voltada à sua proteção.
O próprio estudo técnico que embasa a criação da UC reconhece que a categoria escolhida “não é a mais adequada” para uma área extensa com espécie ameaçada e necessidade de proteção integral dos remanescentes nativos. Ainda assim, o IAT argumenta que a ARIE permite “migração para uma categoria de proteção integral futuramente”, caso se comprove necessidade.
A decisão paranaense contraria o que especialistas vêm defendendo em nível nacional. Em junho, mais de 700 pesquisadores assinaram a Carta de Curitiba, aprovada na 1ª Conferência Nacional de Unidades de Conservação, que cobra justamente a ampliação — e não a redução — das UCs de proteção integral no país.