Meio ambiente

Pará microchipa o gado sem explicar como vai ler os chips até 2030

Bastão de leitura custa mil vezes mais que o brinco, e as 14 unidades da Adepará não acompanham onde está o rebanho
Fiscal da Adepará observa rebanho em curral, simbolizando desafios da rastreabilidade do gado no Pará

A rastreabilidade do gado no Pará tem um problema que não está no brinco, e sim em quem vai lê-lo: o estado precisa identificar 25,5 milhões de bovinos até 2030 e ainda não apresentou como manterá o sistema funcionando depois disso.

Com o segundo maior rebanho do país, um território de dimensões continentais e quadro de pessoal enxuto, o programa de Pecuária Sustentável depende de leituras contínuas do chip a cada transporte, venda, vacinação ou abate.

Um brinco de R$ 7, um leitor de R$ 7 mil

Cada animal recebe dois brincos: um visual, com número legível a olho nu, e outro com tecnologia RFID — um chip com antena que armazena sexo, idade e raça e conecta o boi ao Sistema Oficial de Rastreabilidade Bovídea Individual do Pará (SORBIP), gerido pela Agência de Defesa Agropecuária do Pará (Adepará).

Identificado, o animal passa a ser acompanhado por toda a vida. Cada troca de propriedade, transporte, vacinação ou embarque para o abate exige que o chip seja lido por um bastão eletrônico, que envia a movimentação ao sistema oficial. É essa leitura que permite saber se o boi passou por áreas associadas ao desmatamento, além de registrar idade e peso.

O gargalo aparece no preço. O brinco com microchip custa cerca de R$ 7; o bastão de leitura sai, em média, por R$ 7 mil. Por isso, avalia o pesquisador do Imazon Amintas Brandão em entrevista ao ((o))eco, a própria Adepará tende a assumir as leituras, sobretudo para os pequenos produtores. Um levantamento recente já mostrava que cada agente credenciado precisaria identificar 64 bois por dia útil para o estado cumprir a meta — um gargalo que agora se soma ao dos equipamentos.

A fiscalização está longe do rebanho

A estrutura disponível são 14 unidades de fiscalização de trânsito agropecuário, encarregadas de vigiar o transporte de animais, plantas e produtos agrícolas em estradas e rios. Apenas três delas ficam em municípios que figuram entre os 50 maiores rebanhos do Pará. Monte Alegre, o maior desse grupo, tem 373,4 mil cabeças — 1,46% do rebanho estadual — e apenas três animais identificados no sistema até agora.

“Não tem como a mesma equipe se deslocar para muitos lugares”

Para Brandão, a saída passa por descentralizar as leituras e ampliar a oferta de equipamentos. “O ideal é que toda agência da Adepará tenha pelo menos um bastão de leitura, principalmente se considerarmos as distâncias dentro do estado”, afirma o pesquisador. “As fazendas muitas vezes ficam a dezenas de quilômetros de distância da agência mais próxima. Então, não tem como a mesma equipe da Adepará se deslocar para muitos lugares em um mesmo dia.”

Questionada sobre os critérios de distribuição das unidades de fiscalização, a quantidade e a localização dos bastões disponíveis e sua participação no processo de brincagem dos animais, a Adepará não respondeu aos questionamentos até o fechamento da reportagem.

O silêncio recai sobre um programa que já perdeu um prazo: a meta foi adiada de dezembro de 2025 para 2030, depois que menos de 2% do rebanho paraense foi identificado nos dois primeiros anos de microchipagem. A continuidade da política também virou tema eleitoral, e os candidatos ao governo do Pará já apresentam propostas divergentes sobre o futuro da rastreabilidade bovina no estado.