O governo federal derrubou 506 sites com indícios de oferta irregular de apostas online desde a edição da medida provisória que proibiu as bets no país, em 25 de setembro. A ação é tocada por uma força-tarefa que reúne os ministérios da Justiça e da Fazenda.
Agora o alvo se desloca para onde a propaganda das plataformas ilegais sobreviveu: buscadores, redes sociais e grupos de Telegram que somam 212,6 mil integrantes.
A publicidade sobreviveu à proibição
Um relatório do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, encontrou anúncios de casas de apostas ainda circulando em plataformas da Meta, do Google e no TikTok. As peças convidavam ao cadastro com iscas do tipo “convide amigos e ganhe R$ 888,00” e “Ganhe R$ 50,00 grátis”.
No Google foram mapeados 1.900 anúncios. O próprio ministério admitiu não ter conseguido separar, nesse conjunto, o que era veiculação nova e o que já estava no ar antes da proibição. Na Meta o número é bem menor — 7 anúncios —, mas 2 deles começaram a rodar já sob a vigência da norma, e o Ciberlab pediu a notificação da empresa para a derrubada.
Nomes trocados e links mascarados
Parte dos anúncios usava nomes de página diferentes da marca exibida e endereços de destino sem qualquer relação com ela. Para os técnicos do ministério, esses elementos podem indicar ocultação do anunciante real e do caminho do tráfego. O órgão cobrou das bigtechs mecanismos capazes de detectar páginas com identidade dissimulada e links encobertos. A própria MP 1394/26 já havia dado prazo de 10 dias para a retirada dos anúncios em circulação e responsabilizado redes sociais e lojas de aplicativos que não agissem contra o conteúdo irregular — prazo que a Secretaria de Direitos Digitais (Sedig) formalizou nesta terça-feira (29) em ofício enviado às redes sociais. Pelo cronograma, a veiculação de novas campanhas publicitárias de bets não autorizadas fica proibida a partir de 5 de outubro, e o conteúdo antigo já publicado deve ser totalmente eliminado até 8 de outubro. Também nesta terça-feira (29), o Ministério da Justiça informou que já notificou a Apple e o Google para a remoção de 186 aplicativos de apostas das respectivas lojas, com prazo até as 23h59 de 5 de outubro — a partir do dia seguinte, 6 de outubro, nenhuma plataforma ilegal deve estar disponível para download no país. Em coletiva de imprensa realizada em Brasília nesta terça-feira (29), o governo detalhou que são 8 as plataformas notificadas para retirar do ar as peças publicitárias de bets nesse prazo de 10 dias: Google, Meta, YouTube, X, Telegram, TikTok, Kwai e Discord. O Ciberlab também começou nesta terça (29) a atuar diretamente contra conteúdos de apostas no TikTok.
A mesma norma impôs prazo também para o fim das operações antes autorizadas: as casas de apostas que constavam nas listas oficiais do governo antes da proibição têm até a próxima segunda-feira (5) para devolver aos apostadores os valores que ainda estavam depositados nas plataformas na sexta-feira (25), véspera da proibição.
O esforço de bloqueio antecede a própria medida provisória: entre 1º de janeiro e 22 de setembro, a Secretaria de Prêmios e Apostas encaminhou à Anatel 57.691 endereços — entre domínios e URLs — para bloqueio, e desde dezembro de 2024 a agência já havia notificado as operadoras de internet sobre mais de 78 mil sites, uma média de 156 por dia. Os próprios secretários do governo admitiram, na coletiva desta terça (29), que os endereços costumavam voltar ao ar sob outro domínio assim que bloqueados, e disseram que a tarefa não pode se resumir a “enxugar gelo”. Em balanço divulgado nesta terça-feira (29), a pasta atualizou o total acumulado desde a edição da MP: já foram encaminhados pedidos de bloqueio de 5.209 sites de apostas à Anatel e ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) — 1.386 indicados pela Sedig e 3.823 pela Secretaria de Prêmios e Apostas. Os pedidos começaram no domingo (27), dois dias após a edição da MP, e a Anatel já havia determinado o bloqueio de 2.387 desses domínios, repassando as ordens às 21.206 provedoras de internet do país; segundo o conselheiro da agência Otávio Pena Pieranti, cada bloqueio leva de 6 a 8 horas para se efetivar. O governo não informou quantos dos 5.209 sites indicados já estão de fato fora do ar.
O Telegram como rota de fuga
A força-tarefa identificou 43 canais e grupos ativos no Telegram dedicados à divulgação de apostas e cassinos online, com 212,6 mil integrantes somados. A relação foi encaminhada no domingo, 27, aos órgãos da Fazenda e da Justiça para verificação técnica e administrativa da situação dos operadores. Nesta terça-feira (29), o balanço da força-tarefa mostrou que a ofensiva já avançou da identificação para a ação: foram derrubados grupos no Telegram que somavam mais de 1 milhão de membros dedicados à divulgação de apostas ilegais — o governo afirma ter alcançado 1.014.722 integrantes de canais, grupos e perfis do tipo —, além da remoção de 390 páginas usadas para o mesmo fim (300 no Facebook e 90 no Instagram).
Nesses espaços circulam promessas de 260% de lucro mensal, oferta de “robôs” de aposta e alegações de taxa de acerto de até 99,8%. Segundo o ministério, a atuação integrada busca impedir que a retirada formal das bets seja driblada pela migração para grupos fechados, aplicativos e plataformas hospedadas fora do país.
O mesmo balanço mostrou que a ofensiva avançou também sobre a estrutura administrativa e financeira das operações ilegais, com o governo migrando do bloqueio isolado de domínios para a asfixia financeira dos grupos — a lógica do “follow the money”. O diretor de Fiscalização da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, Carlos Renato Xavier de Resende, resumiu por que a estratégia mudou: “se 1.000 sites eram bloqueados, 12.000 eram criados”, disse, ao defender o foco no fechamento dos canais de pagamento das bancas ilegais. O Ministério da Justiça abriu 3 processos administrativos contra empresas de apostas a partir de 63 registros de irregularidades encaminhados pela Secretaria de Prêmios e Apostas, e acionou o Banco Central para rastrear a cadeia de pagamentos das plataformas — as mesmas 63 pessoas jurídicas identificadas como destinatárias de valores das apostas ilegais tiveram as transferências a elas destinadas congeladas após notificação às instituições financeiras. O secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, explicou por que é possível seguir o dinheiro mesmo em sites ilegais: “não há como não passar pelo sistema bancário convencional. O apostador, seja ele regularizado (…) seja ele no mercado ilegal (…) precisa ter uma conta bancária para fazer uma transferência”, disse. Nas 12 operações policiais realizadas pela Polícia Federal contra o setor de jogos de azar — batizadas Narco Bet, Dark Bet, Dark Bet II, Véu de Maia, Última Aposta e Arena e conduzidas entre março de 2023 e agosto de 2026 — foram expedidos ao menos 73 mandados de busca e apreensão e 15 mandados de prisão, e os bloqueios judiciais e administrativos já somam R$ 4,17 bilhões. Os recursos e bens retirados das bets ilegais serão destinados ao Fundo Nacional de Segurança Pública.
O ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, afirmou que a fiscalização às apostas não regulamentadas será permanente e atribuiu às medidas recentes um resultado já mensurável: o volume de transações via Pix no país caiu cerca de 10% entre sábado (26) e segunda-feira (28), variação que o ministério citou como indício da eficácia imediata da contenção. Pesquisas da Secretaria de Comunicação Social (Secom) indicam apoio da maioria da população a regras mais duras para as bets, com adesão maior entre mulheres e evangélicos.
O tamanho do problema já havia sido dimensionado meses antes, quando o governo estimou em 25,2 milhões o número de brasileiros apostando em plataformas ilegais. E a ofensiva contra a propaganda não começou agora: em junho, o governo anunciou a responsabilização tributária de influenciadores que promovessem casas de apostas irregulares.
Do outro lado, novos endereços seguem aparecendo em ritmo acelerado. Um levantamento do site Bet Legal, mantido pela empresa de cibersegurança Iron Security, que presta serviços a casas de apostas no país, identificou 543 novas casas de apostas lançadas ilegalmente entre as 18h da sexta-feira (25) e a tarde desta segunda-feira (28). Só na primeira hora após o anúncio da medida provisória, 41 novas casas já haviam sido registradas; no dia seguinte, sábado (26), foram abertas mais 292.
Enquanto isso, o setor regulado contesta a proibição na Justiça. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) protocolaram nesta segunda-feira (28) um pedido no Supremo Tribunal Federal (STF) para suspender os efeitos da medida provisória. As entidades argumentam que a MP foi editada sem demonstração de urgência e lembram que o próprio Executivo enviara ao Congresso o projeto que resultou no marco regulatório do setor em 2023, destacando à época os benefícios econômicos da legalização — por isso, pedem que o STF suspenda a norma até a deliberação do Congresso, que tem até 120 dias para apreciar a MP, ou o julgamento das ações já em curso na Corte.
Em manifesto divulgado junto ao pedido, as associações afirmam que 31 milhões de pessoas usam plataformas legalizadas, que contam com mecanismos como verificação de idade e CPF, autoexclusão, políticas de saúde mental e restrições para beneficiários de programas sociais.
A crise chegou também ao futebol. O governo havia marcado para esta terça-feira (29), às 15h, uma reunião com clubes e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para discutir os impactos da MP, sobretudo a perda de receita com patrocínios de bets — mas o encontro foi adiado depois de clubes como Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco, Palmeiras, Santos e São Paulo se articularem para não enviar representantes. Segundo apuração do Poder360, integrantes do governo avaliaram que não havia clima para a conversa após o boicote, e o ministro do Esporte, Paulo Henrique Cordeiro, assinou o ofício que adiou o encontro, ainda sem nova data marcada. Um dia antes, na segunda-feira (28), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia dito que os clubes “que se virem” para compensar as perdas. O governo afirmou manter o diálogo com as entidades esportivas e disse que pretende defender a MP “tal qual foi publicada” perante o Congresso. Em 2025, as bets pagaram R$ 1,143 bilhão em patrocínios aos 20 clubes de maior receita do país, segundo levantamento da consultoria Sports Value.