Quem depende do SUS para tratar insuficiência renal vai encontrar uma nova lógica de atendimento: o Ministério da Saúde reorganizou a assistência especializada à doença renal crônica em conjuntos de procedimentos definidos pelo estágio de cada paciente.
A mudança integra o programa Agora Tem Especialistas e vem acompanhada de reajuste nos valores repassados, que podem ficar até 360% acima dos praticados até agora. O objetivo declarado é atender em tempo adequado, travar a progressão da doença e reduzir casos graves.
Cuidado agrupado por estágio da doença
A reorganização se dá por meio das chamadas Ofertas de Cuidados Integrados, que reúnem em um mesmo pacote consultas com especialistas, exames laboratoriais e de imagem, acompanhamento multiprofissional e outros procedimentos, conforme o estágio da doença e as necessidades de cada paciente.
A aposta do ministério é sobre o tempo: com os cuidados contratados em conjunto, o intervalo entre uma etapa e a seguinte tende a encurtar e o paciente deixa de percorrer o sistema procedimento por procedimento. O modelo também serve para preparar quem precisa iniciar terapia renal substitutiva.
O que muda no repasse
O reajuste é o que dá musculatura à medida. A preparação para a hemodiálise, por exemplo, sai de R$ 940,22 para R$ 3.000,63 — mais do que o triplo do valor anterior. A mudança chega em meio a um cenário de tensão no financiamento da diálise: o TCU investiga atrasos nos repasses a clínicas que já somam mais de R$ 100 milhões em cobranças pelo país.
A ampliação da assistência renal também se soma a outras frentes do programa Agora Tem Especialistas, lançado em 2025 para permitir que hospitais privados troquem dívidas tributárias por atendimento a pacientes do SUS.
Transplante entra na linha de cuidado
O transplante renal passou a integrar formalmente a organização do cuidado. Com os novos pacotes, o acompanhamento especializado pode identificar e encaminhar para avaliação de transplante pacientes que ainda nem começaram a dialisar.
A previsão não é inédita no papel: as regras do Sistema Nacional de Transplantes já determinam que pessoas em estágio avançado da doença, mesmo fora da diálise, sejam orientadas sobre a possibilidade do transplante e tenham acesso à avaliação especializada. O que muda é o caminho prático para que isso aconteça dentro da rotina do atendimento.
A integração acompanha outra mudança recente da pasta, que passou a remunerar equipes hospitalares por identificar potenciais doadores de órgãos, dentro da Política Nacional de Doação e Transplantes.
Anemia ganha novas opções
Em paralelo, o ministério atualizou o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Anemia na Doença Renal Crônica. O documento incorporou ao sistema público novas opções de tratamento, entre elas a carboximaltose férrica e a derisomaltose férrica.