O Tribunal de Contas da União (TCU) abriu investigação sobre atrasos no repasse de recursos a clínicas de hemodiálise que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A decisão, publicada no Diário Oficial da União, teve origem em denúncia envolvendo a Prefeitura de Goiânia (GO), onde pacientes renais ficaram expuestos a risco de vida.
O tribunal concluiu que os indícios não se limitam a um único município e unificou processos semelhantes em andamento em estados como Roraima e Tocantins. O caso também reverbera no Congresso Nacional, que solicita informações sobre a regularidade dos repasses em todo o país.
Clínicas relatam dívidas milionárias
Segundo a Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT), os atrasos são frequentes e vêm se agravando. A entidade registrou cerca de 40 cobranças extrajudiciais em 2024, somando mais de R$ 109 milhões em valores atrasados. Em 2025, o número subiu para aproximadamente 50 cobranças, totalizando R$ 123 milhões.
Em 2026, já foram feitas mais de 17 cobranças, indicando continuidade do problema. Em alguns casos, os atrasos superam 60 dias mesmo quando o recurso federal já foi transferido.
Tratamento não pode ser interrompido
A diálise é um tratamento contínuo e inadiável. Pacientes com doença renal crônica dependem da terapia para sobreviver, e qualquer interrupção pode levar ao acúmulo de toxinas no organismo com risco de complicações graves e morte em poucos dias.
Dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN) mostram que o Brasil tem hoje 173.408 pessoas em diálise, sendo que 83% são atendidas pelo SUS — proporção que aumentou em relação ao ano anterior.
Financiamento abaixo do necessário
Além dos atrasos, especialistas apontam que o financiamento da diálise no SUS está defasado. Um estudo encomendado pela SBN e pela ABCDT indica que o custo médio de uma sessão de hemodiálise é de R$ 343, enquanto o valor pago pelo SUS é de R$ 240,97 — uma defasagem de cerca de 38%.
Procurado, o Ministério da Saúde afirmou que todos os repasses federais para o custeio da hemodiálise estão sendo realizados regularmente. A pasta lembrou que a gestão do SUS é tripartite, envolvendo União, estados e municípios, e que estes são responsáveis pelo pagamento às clínicas.
Na mesma semana, o ministério anunciou um reajuste de 15% no valor pago por sessão de hemodiálise, o segundo aumento desde 2023, acumulando alta de 27% em relação a 2022, com impacto estimado de R$ 860 milhões por ano.