A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão de assessoramento técnico ligado ao Senado Federal, divulgou nesta quinta-feira (17) uma projeção de déficit fiscal de R$ 86,1 bilhões nas contas públicas de 2027.
O número contraria a proposta orçamentária enviada pelo governo Lula ao Congresso Nacional no fim de agosto, que prevê superávit de R$ 18,6 bilhões no mesmo período — uma diferença de R$ 104,8 bilhões entre as duas estimativas.
De acordo com o Relatório de Acompanhamento Fiscal de setembro, divulgado pela IFI, a meta fiscal para 2027 estabelece resultado positivo de R$ 73,2 bilhões, equivalente a 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Como o arcabouço fiscal permite uma margem de tolerância, o governo poderia registrar déficit primário de até R$ 28,1 bilhões sem descumprir formalmente o objetivo.
O problema é que a projeção da IFI vai muito além dessa margem. Se o rombo de R$ 86,1 bilhões calculado pelo órgão se confirmar, a meta será descumprida — a menos que o governo promova bloqueio de gastos adicional para conter despesas ao longo do ano.
Por que as contas não batem
A divergência entre as duas estimativas nasce, em parte, de visões diferentes sobre o ritmo de crescimento da economia. A equipe econômica do governo trabalha com uma expansão do PIB maior do que a projetada pela IFI, o que se traduz em expectativa de mais receita.
Do lado das despesas, o órgão do Senado aponta discrepâncias nos cálculos para gastos previdenciários, Benefício de Prestação Continuada (BPC), abono salarial, seguro-desemprego e pagamento de sentenças judiciais — itens que pesam diretamente no resultado primário.
A proposta orçamentária que originou o impasse foi enviada ao Congresso Nacional no fim de agosto, já com o superávit de R$ 18,6 bilhões bem abaixo da meta de R$ 73,2 bilhões fixada meses antes — um recuo que a IFI agora contesta com números ainda mais distantes.
Bolsa Família amplia ainda mais a distância
O cálculo da IFI foi fechado antes de o governo anunciar reajuste de 15,04% nos benefícios do Bolsa Família, medida que deve custar R$ 5,8 bilhões neste ano e R$ 22,7 bilhões em 2027, segundo o Ministério do Planejamento. A distância entre as contas oficiais e as do órgão do Senado tende a crescer quando esse gasto adicional for incorporado às próximas revisões.
Ainda assim, a IFI avalia que a meta de 2027 pode ser cumprida “desde que as atuais premissas macroeconômicas se confirmem” e os cortes de despesas necessários sejam de fato implementados. O relatório pondera, porém, que mesmo nesse cenário mais favorável o resultado fiscal ficaria “muito distante” do patamar necessário para estabilizar a relação entre dívida pública e PIB.
Dívida em patamar elevado
A dívida bruta do governo geral está em 82,5% do PIB, nível considerado alto na comparação com outros países emergentes. Para analistas de mercado, os déficits fiscais recorrentes dos últimos anos alimentam esse endividamento e pressionam a taxa de juros para cima — alerta que a própria IFI já fazia em junho de 2025, quando defendia reformas estruturais como única saída para evitar uma crise fiscal mais severa em 2027.