O governo federal anunciou nesta quinta-feira (17) um reajuste de 15% no Bolsa Família, que eleva o piso de R$ 600 para R$ 691 a partir de outubro.
O anúncio ocorre a 17 dias do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para 4 de outubro, no qual Lula concorre à reeleição.
Economistas ouvidos pelo g1 consideram o valor compatível com a inflação acumulada, mas questionam o timing do anúncio e alertam para riscos às contas públicas e aos juros.
Paralelo com a PEC Kamikaze de 2022
O reajuste eleva o benefício médio do programa de R$ 675 para R$ 777, segundo o Ministério do Planejamento. O governo diz que a correção de 15% recompõe parte da inflação acumulada desde 2023, que já soma 17% até agosto — a primeira correção desde o relançamento do programa. Leia mais: Governo anuncia reajuste de 15% e piso sobe para R$ 691.
Para o professor da Universidade de Brasília (UnB) José Luis Oreiro, “o reajuste, em si, é justo. O problema é o momento”. Ele lembra que o último aumento do piso ocorreu em 2022, quando o programa ainda se chamava Auxílio Brasil e a PEC Kamikaze abriu crédito extraordinário fora do teto de gastos, elevando o benefício médio de R$ 408 para R$ 607 em um único mês.
Segundo o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, o novo reajuste custará R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22,7 bilhões por ano a partir de 2027, quando as despesas do programa devem subir de R$ 157,1 bilhões para R$ 179 bilhões. Moretti afirma que há espaço fiscal para custear a medida sem estourar as regras orçamentárias.
Eficiência do reajuste sob questionamento
Para Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, seria mais eficiente concentrar o aumento nos adicionais pagos a grupos específicos, como crianças e adolescentes, em vez de elevar o piso geral recebido por todas as famílias. Segundo ele, como a pobreza extrema está em níveis baixos, o efeito da medida sobre a redução da pobreza tende a ser limitado.
Oreiro defende a criação de uma regra permanente de reajuste, corrigindo o benefício todo ano pela meta de inflação de 4% definida pelo Conselho Monetário Nacional. Para ele, a ausência dessa regra é o que permite que uma correção justificável pela inflação seja lida como decisão eleitoreira: “é compreensível que o governo tenha tomado essa atitude, mas o timing é eleitoreiro”.
A mudança de postura do governo chama atenção: em agosto de 2025, o Executivo descartava qualquer correção e chegava a prever corte de recursos para o Bolsa Família em 2026. Menos de um ano depois, o piso sobe 15% às vésperas da eleição.