Uma crise diplomática entre os governos dos Estados Unidos e do Brasil trava a cooperação bilateral contra o crime organizado, revela reportagem do “The New York Times” publicada neste sábado (12).
Segundo autoridades ouvidas sob anonimato, o Departamento de Estado americano reteve os vistos de dois agentes da Polícia Federal que seriam lotados em Miami e Nova York. Em retaliação, o Brasil bloqueou o visto de um oficial dos EUA que atuaria no país.
Da recusa de vistos à disputa por influência eleitoral
Paralelamente ao impasse dos agentes da PF, os Estados Unidos alegaram “agenda lotada” para recusar a visita de quase doze agentes da Receita Federal brasileira, que planejavam ir a Washington para reforçar o combate à lavagem de dinheiro e ao contrabando de armas. Procurado pelo NYT, o Departamento de Estado não comentou os casos específicos, mas afirmou que o governo Trump protege “a nação e seus cidadãos ao manter os mais altos padrões de segurança nacional e segurança pública” no processo de concessão de vistos.
A disputa atual é um capítulo recente de uma escalada iniciada em abril, quando o governo Trump expulsou dos EUA o delegado brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho, acusado por Washington de promover uma “caça às bruxas política” após participar da prisão de um ex-chefe da inteligência acusado de golpe em 8 de janeiro de 2023. O Itamaraty acionou a reciprocidade e a PF retirou as credenciais de um agente americano em Brasília como resposta imediata.
Segundo o NYT, o desgaste se intensificou diante da disposição do governo americano em favorecer Flávio Bolsonaro, candidato de direita que disputa com Lula as eleições de outubro. Em maio, Lula apresentou pessoalmente a Trump, na Casa Branca, uma proposta de combate conjunto às facções criminosas focada no bloqueio de armas — que nunca foi respondida pelo governo americano. No mesmo mês, sob pressão de aliados de Bolsonaro, Washington classificou as duas maiores facções do país como organizações terroristas, decisão que vazou investigações sigilosas da Polícia Federal ao aplicar sanções públicas a suspeitos monitorados, forçando prisões apressadas. Deputados democratas já haviam alertado que a medida poderia atrapalhar estratégias de combate ao crime transnacional.
Cooperação técnica resiste, mas alto escalão trava avanços
Apesar do impasse político, a cooperação técnica pontual segue ativa — como o sistema de alertas cruzados sobre contêineres suspeitos, que já ajudou a interceptar armas contrabandeadas. Mas a falta de alinhamento entre os governos ameaça o combate às facções em um cenário estratégico: o Brasil é rota para a cocaína destinada à Europa e à África, enquanto grupos criminosos usam o sistema bancário americano para lavar dinheiro e compram armas enviadas ilegalmente dos EUA. Recentemente, a PF prendeu dois homens com peças de armamento vindas da Flórida.
Além do impasse nos vistos, o Brasil ficou de fora de iniciativas de segurança lideradas pelos EUA na região, como a aliança “Escudo das Américas”, e de encontros sobre o tema na ONU. Para o ex-embaixador americano Jimmy Story, esse tipo de postura diplomática produz um afastamento contraproducente entre os dois países. O mal-estar bilateral já havia ficado evidente dois dias antes desta reportagem, quando os EUA ignoraram pela segunda vez seguida os parabéns pela Independência do Brasil.