O governo Lula (PT) decidiu nesta terça-feira (4) adotar reciprocidade contra os Estados Unidos depois que o Departamento de Estado revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Uma reunião nesta quarta-feira (5) vai definir o formato exato da resposta brasileira, que pode repetir a medida americana ou adotar outra sanção de gravidade equivalente. Uma decisão, porém, já foi tomada: a embaixadora permanecerá em Washington — a avaliação do Itamaraty é que um retorno ao Brasil dificultaria sua volta aos Estados Unidos, já que seria necessária uma nova autorização de entrada no país.
Por que o visto foi revogado
A Casa Branca argumenta que a revogação é uma resposta à demora do Brasil em conceder o aval diplomático necessário para que o americano Daniel Perez assuma a embaixada dos EUA em Brasília. O impasse, no entanto, tem raízes em um precedente diplomático: o nome de Perez chegou ao Senado americano sem consulta prévia ao Brasil, uma quebra do rito previsto pela Convenção de Viena que alimentou a resistência do Itamaraty em conceder o aval, como mostrou o Tropiquim.
Atualmente, o Brasil está sem um embaixador americano em seu território. Quem representa os Estados Unidos no país é a encarregada de negócios interina em Brasília, Kimberly Kelly, cargo que não tem o mesmo status de embaixadora.
Apesar do peso simbólico, a revogação não traz consequência prática grave: trata-se de um visto de entrada não renovado, e Viotti pode permanecer em solo americano — o governo americano deixou claro que a medida não equivale à sua expulsão. Os EUA sinalizaram ainda que o documento poderá ser restabelecido caso o Brasil conceda o aval diplomático para a nomeação de Perez.
Motivação eleitoral no centro da crise
Fontes do governo brasileiro afirmam que a medida americana tem tom eleitoral, leitura que soma o episódio a uma escalada mais ampla. Dez dias antes da revogação do visto, o Brasil já havia barrado a entrada de dois funcionários dos EUA que tentavam se reunir com o TSE às vésperas das eleições, caso em que o Departamento de Estado negou qualquer intenção de interferência eleitoral, como noticiou o Tropiquim.
Em nota, o governo brasileiro classificou como “falsas” as justificativas de Trump e disse que a medida é motivada por “razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo”. Uma semana antes da revogação, o Executivo já antecipava novas retaliações de Washington e avaliava que cada episódio de tensão reforçaria a narrativa eleitoral da oposição, como já mostrava o Tropiquim.
A orientação do Planalto, por ora, é manter a atual representação diplomática e evitar movimentos que possam ser interpretados como uma resposta prévia. A avaliação é de que, se os Estados Unidos decidirem ampliar as restrições ou adotar novas medidas, essa iniciativa partirá dos americanos.