O Brasil escalou nesta quarta-feira (22) sua reação à crise com Washington: o Itamaraty divulgou nota formal acusando o governo Trump de descumprir a boa prática diplomática ao expulsar o delegado da PF Marcelo Ivo de Carvalho dos Estados Unidos sem qualquer consulta prévia ao governo brasileiro.
Em resposta, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, retirou as credenciais de um agente americano de imigração que trabalhava na sede da PF em Brasília — tornando concreto o princípio da reciprocidade.
A nota do Itamaraty cita diretamente um memorando de entendimento bilateral que rege a cooperação policial entre os dois países. O documento prevê que, se qualquer das partes quiser encerrar a missão de um oficial de ligação, os participantes devem “se consultar mutuamente” antes de agir. Para Brasília, o governo Trump ignorou essa cláusula ao ordenar a saída de Marcelo Ivo sem pedir esclarecimentos nem buscar diálogo com o lado brasileiro.
Outro ponto sublinhado pelo comunicado é o formato das comunicações ao longo de todo o episódio: tanto o aviso dado ao delegado brasileiro quanto a reunião com a embaixada americana ocorreram de forma verbal, sem notificação oficial escrita. Nos bastidores, integrantes do governo brasileiro já reclamavam desde segunda-feira da ausência de um documento formal dos EUA.
O que muda para o agente americano
Com a retirada das credenciais, o policial americano perde o acesso à unidade da PF onde trabalhava, em Brasília, e às bases de dados compartilhadas entre as duas corporações. Andrei Rodrigues deixou claro que não há ordem de expulsão: “Tanto o Marcelo Ivo não foi expulso dos Estados Unidos, como nós, Polícia Federal, não vamos expulsar ninguém do Brasil. Não é nosso papel”, afirmou em entrevista à GloboNews.
A decisão de aplicar a reciprocidade foi comunicada na terça-feira (21) durante reunião do Itamaraty com Kimberly Kelly, encarregada de Negócios interina da Embaixada americana em Brasília. Foi justamente nessa reunião com Kelly que o Brasil comunicou sua decisão de aplicar a reciprocidade — o que o Itamaraty formalizou em nota nesta quarta.
O governo americano, sem citar o nome do delegado, acusou a autoridade brasileira de tentar “contornar pedidos formais de extradição” para promover “perseguições políticas” nos EUA. A TV Globo confirmou com a Embaixada que a autoridade mencionada era Marcelo Ivo. O delegado já retornou ao Brasil.
O pano de fundo do imbróglio é o processo de extradição do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), condenado por envolvimento na trama golpista de 2022. A prisão de Ramagem em Orlando teve participação direta do delegado brasileiro — exatamente o que o governo Trump contesta, alegando que o agente teria agido fora dos canais formais.
A ameaça de reciprocidade esboçada publicamente por Lula na terça-feira tomou forma concreta nesta quarta com a nota formal do Itamaraty e a retirada das credenciais do agente americano em Brasília. O episódio expõe a fragilidade do entendimento bilateral em um momento de tensão crescente entre os dois governos.
