O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, classificou nesta quarta-feira (12) como “bizarra” a conduta dos Estados Unidos na indicação de Daniel Perez para a embaixada no Brasil.
Em audiência na Comissão de Relações Exteriores da Câmara, ele disse que Washington agiu “às pressas” e sem aguardar o agrément — autorização formal exigida antes da posse de um embaixador.
Para o assessor, o momento da indicação, feita perto das eleições de 2026, “não aconteceu por acaso”.
Timing “não foi por acaso”, diz Amorim
Segundo Amorim, a decisão dos Estados Unidos de indicar um novo embaixador exatamente na proximidade das eleições brasileiras de 2026 não foi casual. Ele lembrou que o posto ficou vago por mais de um ano e meio após a saída da embaixadora anterior, ainda no início do governo Biden, período em que a representação diplomática ficou a cargo de um encarregado de negócios.
“Isso não aconteceu por acaso. […] De repente, na proximidade das eleições, às pressas, sem nosso consentimento, quis acreditar um outro embaixador”, afirmou o assessor, sugerindo motivação política por trás do movimento americano.
Rito diplomático inverte a ordem desde o início
A sequência criticada por Amorim não é nova: como mostrou o Tropiquim, os EUA formalizaram o pedido de agrément ao Itamaraty só semanas depois de Trump já ter anunciado publicamente o nome de Perez, invertendo o rito que Amorim agora classifica como descumprido.
Filho de imigrantes cubanos, Daniel Perez preside a Câmara dos Deputados da Flórida e é filiado ao Partido Republicano. Sua indicação recebeu parecer favorável de uma comissão do Senado americano, mas ainda depende de aprovação pelo plenário da Casa — além do aval formal do governo brasileiro, que segue pendente.
Crise de vistos aprofunda o atrito
A tensão diplomática ganhou um novo capítulo no início de agosto, quando o Departamento de Estado revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Os Estados Unidos justificaram a medida como resposta à demora do Brasil em conceder o agrément a Perez e afirmaram que o visto pode ser restabelecido caso o governo brasileiro autorize a indicação.
Apesar da pressão americana, o Brasil já havia descartado, ainda em junho, o alinhamento de Perez ao MAGA como critério automático de veto, mantendo disposição para avaliar o nome desde que o rito formal fosse respeitado.
O posto de embaixador dos Estados Unidos em Brasília está vago desde janeiro de 2025, quando terminou a missão de Elizabeth Bagley. Desde então, a representação americana no país é comandada pela encarregada de negócios Natasha Franceschi.