A Advocacia-Geral da União (AGU) notificou o YouTube nesta sexta-feira (4) e deu prazo de 72 horas para a plataforma remover ou sinalizar vídeos que usam inteligência artificial para simular falsos médicos.
A ação partiu de um levantamento do programa Saúde com Ciência, do Ministério da Saúde, que identificou 97 perfis desse tipo entre janeiro e julho, espalhando promessas de cura sem comprovação científica.
Avatares com credenciais falsas mirando idosos
Segundo o Ministério da Saúde, os vídeos notificados usam avatares com aparência humana que se apresentam como médicos ou especialistas, exibem qualificações profissionais fictícias e recorrem a um tom alarmista para parecer confiáveis. Boa parte dos perfis mira especialmente a população idosa, usando a suposta autoridade dos personagens artificiais para vender produtos, e-books ou serviços pagos.
O caso não é isolado: em agosto, a Anvisa já havia alertado para perfis inteiramente gerados por IA que se passavam por gurus de saúde para vender e-books com receitas milagrosas — o mesmo padrão de fraude que a AGU agora mira no YouTube.
Riscos apontados pelo governo
O ministério alerta que esse tipo de conteúdo pode levar à automedicação e ao uso de terapias sem eficácia comprovada. Outros riscos citados são o atraso na busca por atendimento profissional e a interrupção ou substituição de tratamentos de saúde já em curso.
Na notificação enviada à plataforma, a AGU determinou que o YouTube torne indisponíveis os conteúdos já identificados pelo Ministério da Saúde ou, dependendo do caso, adote mecanismos de rotulagem que informem aos usuários que os personagens são artificiais. A plataforma também foi orientada a analisar outros canais e vídeos citados no relatório à luz de suas próprias regras sobre desinformação em saúde e conteúdo sintético.
A cobrança tem respaldo em uma ferramenta que a própria empresa já diz ter: em maio, o YouTube anunciou um sistema automático de rotulagem de vídeos gerados por IA, exatamente o mecanismo que a AGU agora exige para os falsos médicos identificados no relatório.
A notificação também não é a primeira investida da AGU contra o YouTube neste ano: em julho, o órgão já havia notificado o Google para remover tutoriais de apostas ilegais da plataforma, também com prazo de 72 horas, o que consolida um padrão de pressão extrajudicial sobre a empresa.
A ação integra uma força-tarefa do governo federal que reúne o Ministério da Saúde, a AGU e a Secretaria de Comunicação Social da Presidência. As informações sobre os 97 perfis também foram encaminhadas à Polícia Federal e ao Conselho Federal de Medicina, e o ministério recomenda que a população busque informações de saúde em fontes oficiais e denuncie conteúdos suspeitos.