Saúde

Terapia genética controla colesterol alto por 1 ano com dose única

Estudo usa CRISPR para desligar gene ligado ao LDL e reduziu colesterol em 50% em pacientes
Aperto de mão entre paciente e médico simbolizando a esperança da dose única para colesterol alto por terapia genética

Uma pesquisa apresentada na semana passada no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia mostrou que uma única aplicação de edição genética conseguiu manter o colesterol alto sob controle por até um ano.

O estudo, publicado no New England Journal of Medicine, testou a terapia em 15 pacientes que passaram a ter os índices de LDL e triglicerídeos reduzidos em cerca de 50%, sem precisar de uma segunda dose.

Como funciona a edição genética

O tratamento usa a tecnologia CRISPR, que age como uma tesoura molecular capaz de localizar um trecho do DNA e desativar genes específicos. Neste caso, o alvo é o gene ANGPTL3, presente no fígado, órgão responsável por boa parte da produção de colesterol e triglicerídeos do corpo.

Em condições normais, o ANGPTL3 produz uma enzima que dificulta a eliminação do LDL, o colesterol ruim, e dos triglicerídeos pelo sangue. Ao desativar o gene, os pesquisadores impedem a fabricação dessa enzima, permitindo que o organismo metabolize essas gorduras com mais eficiência.

A pista para o mecanismo veio de uma população da Itália: pessoas que nasciam com uma mutação que tornava o ANGPTL3 defeituoso tinham colesterol e triglicerídeos baixos ao longo de toda a vida, além de menos doenças cardíacas. A terapia genética tenta reproduzir essa proteção natural.

Resultados preliminares

Entre os pacientes que receberam a dose mais alta, a enzima produzida pelo ANGPTL3 caiu quase 80% no sangue, levando a uma redução de cerca de 50% no LDL e nos triglicerídeos — patamar mantido por pelo menos um ano de acompanhamento. Para os pesquisadores, essa durabilidade indica que a edição atingiu um número suficiente de células do fígado, que continuam se multiplicando e repassando a alteração genética.

Próximos passos e desafios de acesso

O estudo ainda está na fase de segurança, mas a próxima etapa, com mais pacientes, já está em andamento e deve trazer resultados até o fim do ano. A partir daí, os pesquisadores pretendem iniciar conversas com órgãos reguladores para avançar a um estudo de fase 3.

Para o cardiologista Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o maior potencial da terapia é oferecer uma dose única para doenças crônicas como dislipidemia e hipertensão, nas quais o abandono do tratamento é comum. Segundo ele, a opção pode beneficiar especialmente pacientes com hipercolesterolemia familiar, que não respondem bem aos tratamentos orais.

Apesar do entusiasmo, Mattar pondera que o caminho até a aprovação regulatória ainda é longo e que o custo deve ser um obstáculo relevante mesmo depois disso: “Esse é um tratamento caro que, mesmo se provada sua eficácia, segurança e aprovado, não deve ser acessível de início à população”, afirma. O padrão já se repete com outras terapias genéticas de ponta: a CAR-T, que elimina tumores em até 80% dos casos, custava R$ 4 milhões por dose e chegou ao Brasil antes que o sistema de saúde tivesse estrutura para entregá-la.

O cirurgião cardiovascular do BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Ricardo Kazunori, avalia que o avanço pode ser relevante para pacientes crônicos, mas ainda está distante de se tornar realidade. A edição genética percorre um caminho já conhecido: no Brasil, terapias para doenças raras avançaram nos últimos anos, mas 75% da população ainda não tem acesso adequado a diagnósticos e tratamentos desse tipo pelo SUS.

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