O uso de canetas emagrecedoras como a semaglutida e a liraglutida, compradas pela internet ou contrabandeadas e aplicadas sem diagnóstico médico, se tornou um problema crescente de saúde pública no Brasil, alerta o cirurgião bariátrico Ricardo Victor Cohen.
O risco atinge qualquer idade: do adulto que quer perder alguns quilos antes de uma festa ao adolescente e à criança obesa que recebe injeção sem qualquer indicação clínica.
Como agem os análogos de GLP-1
Os análogos de GLP-1, caso da semaglutida e da liraglutida, imitam um hormônio produzido pelo próprio intestino para estimular a insulina, reduzir o apetite e aumentar a saciedade. A tirzepatida, mais recente, soma a esse mecanismo a ação sobre o GIP, outro hormônio com efeito semelhante. Em estudos clínicos, o programa STEP registrou perda média de cerca de 15% do peso corporal com a semaglutida, e o SURMOUNT chegou a cerca de 20% com a tirzepatida.
São resultados expressivos para uma doença crônica com base biológica, não uma questão de força de vontade ou vaidade. Mas a eficácia comprovada em ensaios controlados não se repete quando o medicamento chega ao paciente sem procedência: sem registro na Anvisa e sem controle de transporte e armazenamento, não há garantia sobre a dose real dentro do frasco nem se o rótulo corresponde ao conteúdo. A agência já alertou, por exemplo, que a retatrutida circula em sites e redes sociais brasileiras mesmo sem aprovação em nenhum país do mundo.
Estigma empurra pacientes para o mercado clandestino
Tratar a obesidade como fraqueza de caráter é parte do que alimenta essa busca por soluções escondidas. Uma pesquisa da Ipsos com 14.500 pessoas em 14 países constatou que dois terços dos obesos ainda atribuem a doença a escolhas pessoais, reforçando o estigma que afasta pacientes do acompanhamento médico. Sem acesso pelo SUS e com o custo pesando no orçamento das famílias, parte dos pacientes recorre a versões contrabandeadas do Paraguai, o mesmo mercado que dispensa diagnóstico e acompanhamento.
Indicação muda conforme a idade e a gravidade
Em adultos, a indicação formal desses medicamentos é para obesidade associada a uma complicação relacionada ao peso, sempre acompanhada de mudanças no estilo de vida — não para perder alguns quilos por estética. Um parecer publicado no início de 2025 pelo The Lancet Diabetes & Endocrinology separou os pacientes em dois grupos: obesidade clínica, quando o excesso de gordura já compromete órgãos ou limita atividades diárias, e obesidade pré-clínica, quando ainda não há disfunção mas o risco já é maior. Em nenhum dos dois cenários a resposta é um medicamento sem aprovação comprado por conta própria.
Entre adolescentes a partir dos 12 anos, o uso é aprovado e baseado em evidência: a liraglutida foi autorizada pela Anvisa com apoio do estudo SCALE Teens, e a semaglutida 2,4 mg foi aprovada em 2023 com base no STEP TEENS, indicação reconhecida pela diretriz de 2023 da Academia Americana de Pediatria. Abaixo dos 12 anos há apenas evidência inicial, como o estudo SCALE Kids, mas nenhum medicamento foi aprovado até agora. Mesmo quando o tratamento é indicado, ele depende de quatro elementos: diagnóstico, prescrição, produto com procedência e acompanhamento médico — retirar qualquer um deles transforma um tratamento eficaz em risco desnecessário.