A crise institucional que expôs uma disputa aberta entre ministros do Supremo deve se aprofundar nas próximas semanas. Fontes dos dois lados do embate preveem novos relatórios e revelações, com reflexo direto no calendário eleitoral de 2026.
Aliados do ministro André Mendonça acusam adversários de armar uma cortina de fumaça para frear as apurações do caso Master. Já interlocutores de Alexandre de Moraes, Flávio Dino e da cúpula da Polícia Federal veem na ofensiva um ataque à própria corporação e ao PGR Paulo Gonet.
Uma investigação sob disputa
O relatório da Polícia Federal conhecido na segunda-feira (31) é visto por aliados de Mendonça apenas como uma pequena amostra do que ainda pode vir a público. Nesse grupo, a leitura é de que houve tentativa deliberada de dificultar o avanço das apurações do Master.
Do outro lado, interlocutores de Moraes, Dino e da PF enxergam a ofensiva como parte de uma disputa que já mira diretamente a corporação policial: há avaliação, dentro da PF, de que Mendonça quer investigar o diretor-geral Andrei Rodrigues. A tensão ganhou um novo capítulo quando Moraes formalizou a Fachin um pedido de investigação contra o colega, apontando indícios de improbidade administrativa e favorecimento político na relatoria dos casos Master e INSS.
Na quinta-feira (3), Edson Fachin determinou que Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei Rodrigues têm cinco dias para prestar esclarecimentos. Ministros ouvidos nos bastidores apontam um ponto jurídico central: em condições normais, uma investigação só se abre por pedido da PGR ou com seu endosso a uma iniciativa da PF, já que o Ministério Público é o titular da ação penal. Hoje, o que existe é um pedido para anular o material cujo sigilo Mendonça derrubou.
Efeito no tabuleiro eleitoral
No Planalto, auxiliares de Lula acompanham com preocupação outra consequência da guerra interna no STF: o desgaste eleitoral. Há quem avalie que a exposição permanente de Moraes acaba favorecendo Flávio Bolsonaro, já que a oposição associa o ministro diretamente ao presidente — um efeito considerado, por esse grupo, potencialmente mais danoso do que o caso Lulinha.
A crise tem raízes mais antigas. Em março, a iminência de uma delação do banqueiro Daniel Vorcaro já havia exposto tensões cruzadas entre STF, PF e governo Lula, com o Centrão e setores do Executivo pressionando a corporação em direções opostas.
Enquanto Fachin decide como o Supremo vai processar institucionalmente o conflito e Zanin tenta manter canais abertos entre os grupos rivais, fontes de lados opostos concordam em um ponto: o que apareceu até agora não fecha a crise — abre a próxima fase dela.