O Pisa 2025, divulgado nesta terça-feira (8), mostrou que 72% dos alunos brasileiros de 15 anos não dominam matemática básica — ficam abaixo do nível mínimo considerado satisfatório pela avaliação, que ouviu estudantes de 91 países.
A média nacional foi de 406 pontos, quase 100 abaixo dos 500 da OCDE. Na comparação com a América do Sul, o desempenho fraco se repete, mas o Brasil também está atrás da maioria dos 91 países avaliados pela primeira edição da prova.
Uma escala que expõe lacunas históricas
O Pisa divide o desempenho em matemática em níveis. Dentro da faixa abaixo do patamar mínimo, a escala ainda distingue dois graus de dificuldade: o nível 1a, chamado de baixo desempenho, e uma faixa inferior, de desempenho muito baixo. No Brasil, 44% dos estudantes estão nesse grupo mais crítico — abaixo até do nível 1a — enquanto outros 28% ficam no 1a.
No topo da escala, o quadro se inverte. Praticamente nenhum estudante brasileiro chegou aos níveis 5 ou 6, os mais avançados da avaliação, contra 8% na média da OCDE. Um aluno nesse patamar consegue modelar matematicamente situações complexas e comparar diferentes estratégias para um mesmo problema — habilidade dominada por mais de 20% dos estudantes de China, Singapura, Taipé Chinês, Macau, Coreia do Sul, Japão e Hong Kong.
Professores sem repertório suficiente
Para o pesquisador Ernesto Martins, do centro de pesquisas Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), o desempenho fraco em matemática não é exclusividade brasileira — é um desafio compartilhado por toda a América do Sul. No caso do Brasil, ele aponta uma causa estrutural: a formação de professores. “Há uma necessidade de se ampliar o repertório matemático dos docentes. Temos cursos que muitas vezes atraem candidatos com formação básica mais frágil e que, durante a graduação, nem sempre conseguem compensar essas lacunas”, explica.
A fragilidade na formação docente já havia aparecido em outro levantamento: em maio, a Prova Nacional Docente mostrou que apenas 45% dos professores de matemática atingiram nível de proficiência — dado que ajuda a explicar os resultados agora divulgados pelo Pisa.
Um problema que se acumula desde os anos iniciais
Segundo Martins, a dificuldade dos alunos brasileiros também tem raiz na trajetória escolar anterior. “Matemática tem uma progressão particularmente dependente das aprendizagens anteriores. Uma criança que não consolida sentido de número, operações, frações e proporcionalidade chega aos anos finais com lacunas que dificultam álgebra, geometria e resolução de problemas”, afirma. Na prática, professores dos anos finais acabam ensinando conteúdos complexos a alunos que ainda não dominam o básico.
O resultado é sensível também na comparação internacional: com 406 pontos, o Brasil fica próximo de países como Jordânia e Argentina, atrás da maioria das 91 nações avaliadas. O Pisa 2025 trouxe ainda, pela primeira vez, uma prova de resolução de problemas computacionais — capacidade de aplicar lógica e programação —, área também associada ao raciocínio matemático e que deve entrar no radar de gestores educacionais nos próximos ciclos.
O cenário levanta um contraponto a outro dado recente: o Censo Escolar 2025 mostrou que a reprovação atingiu mínima histórica no país, o que reacende o debate sobre se alunos têm sido promovidos entre as etapas sem dominar os conteúdos fundamentais de matemática.