A iminência de uma delação premiada do empresário Daniel Vorcaro transformou o caso Master em uma crise política de múltiplas frentes em Brasília.
STF, Polícia Federal, governo Lula e Centrão disputam narrativas, trocam acusações nos bastidores e correm para blindar posições — cada um à sua maneira.
O movimento de autopreservação se intensificou após o advogado de Vorcaro se reunir com o ministro André Mendonça, que tende a rejeitar qualquer tentativa de delação seletiva.
O cenário em Brasília é de pressão cruzada. Ministros do STF reclamam, nos bastidores, de vazamentos que prejudicam as investigações e cobram do governo Lula um apoio mais contundente ao andamento do caso. A Polícia Federal, por sua vez, vive sob tensão vinda de múltiplos lados: há insatisfação tanto do Executivo quanto do Judiciário com a condução das apurações.
PF no centro das críticas
O Centrão e partidos de direita acusam a corporação de blindar o núcleo do PT na Bahia. Ao mesmo tempo, setores do próprio governo cobram maior divulgação de casos que envolvam adversários políticos. A tensão entre o Planalto e a PF não é novidade: o governo já havia acionado o Ministério da Justiça para investigar os vazamentos, expondo o mal-estar crescente com Andrei Rodrigues e a falta de controle sobre a corporação.
O discurso recente do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, foi lido em Brasília como um desabafo público diante da pressão cruzada. Rodrigues se sustenta no cargo pelo apoio direto do presidente Lula — não por uma relação próxima com o ministro da Justiça, Wellington Dias.
Entre investigadores, a avaliação é de que Dias evita se indispor com o STF e o Senado por estar de olho em uma vaga no Supremo — seja em caso de não indicação de Jorge Messias, seja em eventual quarto mandato de Lula. Para isso, preferiria não arcar com o desgaste de defender a PF nas trincheiras políticas.
Enquanto isso, o governo articula a narrativa de que o escândalo tem raízes no período de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central, tentando transferir o ônus político para a oposição.
O salve-se quem puder já começou
Apesar das disputas internas, a avaliação que converge em Brasília é a de um movimento antecipado de autopreservação. A movimentação ganhou contornos mais concretos quando Vorcaro trocou de advogado por um criminalista favorável à delação — decisão que, nos bastidores, acelerou o clima de cada um por si entre políticos e autoridades.
O passo mais recente foi a reunião do advogado de Vorcaro com o ministro André Mendonça. Segundo apuração do Tropiquim, o encontro tratou de uma defesa conduzida com seriedade — mas o sinal que Mendonça tem dado é de que não aceita acordos seletivos.
No horizonte está um acordo de colaboração que pode ser conduzido pela própria PF, sem a PGR — cenário que ganhou força após Mendonça classificar de lamentável a ausência da Procuradoria nas medidas mais duras da operação.
A extensão real do que Vorcaro pretende firmar ainda é incerta. Mas a expectativa de que a delação possa atingir atores de diferentes espectros políticos é suficiente para manter Brasília em estado de alerta — e cada instituição correndo para garantir que o ônus caia sobre outra.