O secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou que o mundo entrou em uma “zona de perigo de eventos climáticos extremos” com a intensificação do El Niño, classificado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) como o mais forte em mais de 70 anos.
Segundo a OMM, o fenômeno deve durar até fevereiro de 2027 e já eleva a temperatura da superfície do Pacífico a mais de 2°C acima da média, com previsão de atingir perto de 4°C — recorde desde pelo menos 1950.
O risco de secas, enchentes e tufões cresce em diferentes continentes, com atenção redobrada às populações mais vulneráveis a esses impactos.
Um oceano em transformação recorde
O El Niño se desenvolve no oceano Pacífico e altera os padrões de vento, permitindo que águas mais quentes avancem para o leste e liberem calor na atmosfera. Nas últimas semanas, a temperatura da superfície do mar na região de referência do fenômeno ficou mais de 2°C acima da média — patamar que já classificaria o episódio como “muito forte”. As previsões da OMM indicam que a média mensal pode chegar perto de 4°C acima do normal, o que tornaria este o El Niño mais forte desde 1950.
Em junho, quando a NOAA oficializou o fenômeno, a principal dúvida era se o El Niño de 2026 seria recorde — a resposta, agora, parece ser sim, e com larga margem sobre episódios anteriores.
Abaixo da superfície, o cenário é ainda mais extremo: em alguns pontos do Pacífico, as temperaturas estão mais de 8°C acima da média. O aquecimento também atinge o oceano Índico, o Atlântico tropical e as águas próximas à Austrália, onde ondas de calor marinhas já provocaram mortandade de peixes, proliferação de algas e queda no alimento disponível para pinguins em episódios anteriores.
Rotas comerciais e florestas sob pressão
Os efeitos já se refletem na economia e no meio ambiente. O tráfego de navios pelo Canal do Panamá — por onde passam cerca de 14 mil embarcações por ano e que gera perto de US$ 3 bilhões anuais ao país — será reduzido em mais de 10% diante da previsão de menos chuvas. Na Indonésia, incêndios florestais já queimaram mais de 107 mil hectares nesta estação seca, forçando o uso de aviões para semeadura de nuvens e a prisão de dezenas de suspeitos de atear fogo para limpar terrenos. Na China, a expectativa é de sete tufões neste ano; só em julho, três deles deixaram dezenas de mortos, e em agosto mais de 1 milhão de pessoas precisaram deixar suas casas com a passagem do tufão Dolphin.
Efeitos no Brasil e alertas sobre preparo
No Brasil, meteorologistas ouvidos indicam que o El Niño deve elevar as temperaturas em quase todo o território, com efeitos distintos por região: mais chuva intensa e risco de granizo e alagamentos no Sul, calor acima do normal e baixa umidade no Sudeste e no Centro-Oeste, e menos chuva — favorecendo queimadas — no Norte e no Nordeste.
A preocupação com o fenômeno se soma a uma fragilidade estrutural já documentada: em junho, o Tropiquim mostrou que o Brasil segue sem uma política permanente de adaptação a eventos climáticos extremos. Antecipando os impactos, o governo federal chegou a criar um gabinete de crise climática em junho, quando a OMM confirmou a iminência do fenômeno.
No Peru, os Estados Unidos enviaram o navio-hospital USNS Comfort à costa para reforçar a assistência médica quando o El Niño atingir seu pico. Miguel Aréstegui, da organização Practical Action, resume o desafio: “estamos bastante preocupados, mas essa preocupação precisa se traduzir em preparação, e não em alarme”. Segundo ele, moradias em áreas de risco, saneamento frágil e sistemas de saúde precários agravam os efeitos do fenômeno e exigem soluções de mais longo prazo.