Um vídeo que circula nas redes sociais atribui ao ex-presidente Juscelino Kubitschek a previsão de que um “homem mau” assumiria a Presidência do Brasil no século XXI. A gravação é #FAKE: trata-se de um vídeo de JK manipulado com inteligência artificial.
O material original, gravado em 2012, mostra o ex-presidente falando sobre os desafios logísticos da construção de Brasília durante seu governo, entre 1956 e 1961 — sem qualquer menção à suposta previsão.
O que o vídeo verdadeiro mostra
Na gravação original, Kubitschek relata as dificuldades para transportar equipamentos até a nova capital: “Eu vou contar só um episódio para dar o sentido da grandeza das dificuldades. Nós tínhamos que levar para lá um gerador de energia elétrica, um transformador que pesava 70 toneladas […]”. Ele descreve ainda a mobilização do batalhão de engenharia do Exército, comparada a “uma operação de guerra”. Em nenhum trecho aparece referência a um futuro “homem mau” na Presidência.
Três ferramentas confirmam a fraude
O projeto de checagem Fato ou Fake submeteu o vídeo a três ferramentas de detecção de inteligência artificial em áudio e vídeo, e todas identificaram sinais de manipulação. A técnica usada é conhecida como deepfake, que permite trocar o rosto de uma pessoa por outro ou alterar suas falas com apoio de algoritmos.
Rastreando a origem do material
Para localizar o registro original, os verificadores usaram a ferramenta InVID para fragmentar o vídeo em frames e fizeram uma busca reversa dessas imagens no Google Lens. A gravação apareceu publicada no antigo canal do YouTube da Secretaria de Território e Habitação do Distrito Federal, em 7 de março de 2012 — pasta que hoje se chama Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh).
Deepfakes de figuras públicas se repetem nas redes
O caso não é isolado. Trechos do mesmo vídeo verdadeiro de Kubitschek já haviam sido usados em reportagem do g1, que atribuiu as imagens ao Arquivo Público do Distrito Federal, criado em 1985 para organizar o acervo documental do Poder Executivo de Brasília.
Não é a primeira vez que a técnica de deepfake é usada para forjar falas de figuras públicas: um vídeo falso do ministro Fernando Haddad recomendando uma consulta de indenização circulou nas redes com a mesma tecnologia de manipulação de voz e imagem por IA.
O caso se insere num fenômeno mais amplo: a produção de conteúdo político com IA na pré-campanha de 2026 cresceu 50% em relação a 2024, e 45% dos materiais analisados continham informações falsas, segundo o Observatório IA nas Eleições.