Tecnologia

Canais usam IA para erotizar escravidão e lucrar com anúncios no YouTube

Levantamento aponta 80 milhões de visualizações em relatos fictícios que romantizam abuso sexual na escravidão
Logo do YouTube em composição sombria que evoca geração de vídeos de IA sobre escravidão e exploração digital

Canais do YouTube publicam vídeos gerados por inteligência artificial que romantizam e sexualizam a escravidão no Brasil, com títulos sensacionalistas e capas hiperrealistas de homens negros ao lado de mulheres brancas.

Um levantamento da BBC News Brasil identificou mais de 150 canais com esse padrão de conteúdo, somando cerca de 80 milhões de visualizações e mais de 1 milhão de inscritos, em português, inglês e outros idiomas.

Para atingir os requisitos de monetização do YouTube, administradores publicam essas histórias fictícias e depois trocam de nicho, segundo um dos responsáveis identificados pela reportagem.

Um mercado de conteúdo raso e em série

Os vídeos fazem parte do que especialistas chamam de AI Slop, termo usado para descrever conteúdo barato e repetitivo, produzido em série por canais que não revelam seus administradores — os chamados canais dark ou sem rosto. Nessas páginas, histórias inventadas são apresentadas como fatos históricos documentados, com narrações de quase uma hora e imagens que simulam fotografias de época.

Títulos como “O escravo gigante de olhos azuis que fez a sinhá enlouquecer” e “O coronel que dividia a esposa com 7 escravos” seguem o mesmo padrão: prometem revelar episódios chocantes da escravidão, sem qualquer fonte histórica. O exemplo do coronel, ambientado em Minas Gerais em 1864, foi reproduzido por mais de 30 canais diferentes, com pequenas variações de nomes e datas.

O administrador que confirmou a estratégia

A BBC News Brasil identificou Diego Souza, criador de conteúdo com quase 1 milhão de seguidores no Instagram, como responsável por um dos canais. Ele confirmou a autoria e disse que os vídeos foram publicados apenas para que a página atingisse os requisitos de monetização do YouTube — 1 mil inscritos e 4 mil horas de exibição em 12 meses. Questionado sobre o potencial ofensivo do material, tornou os vídeos privados e, no dia seguinte, afirmou que o conteúdo não era de sua autoria.

Especialistas apontam racismo e desinformação histórica

Para a historiadora Keila Grinberg, da Universidade de Pittsburgh, os vídeos recriam mitos racistas e sexistas antigos, misturando a suposta potência sexual de homens negros com a submissão de mulheres brancas. Já Lorena Telles, da Unifesp, afirma que o material transforma exploração, estupro e separação de famílias em “historietas” de paixão, reforçando estereótipos que descrevem homens negros como “máquinas sexuais”.

O YouTube disse à reportagem que remove conteúdos que violam suas diretrizes e que passou a agir contra canais após ser procurado — cerca de 10% das páginas identificadas saíram do ar. A plataforma afirmou ainda exigir que criadores sinalizem o uso de mídia sintética e que pode suspender contas do Programa de Parcerias em casos de violação recorrente ou grave.

O padrão de priorizar engajamento mesmo diante de riscos de dano não é exclusivo do YouTube: ex-funcionários do TikTok e da Meta já revelaram à BBC como as plataformas sacrificaram segurança em nome do engajamento, mesmo sabendo que seus algoritmos amplificavam conteúdo nocivo.

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Escrito com o apoio da inteligência artificial
Este texto foi gerado por IA sob curadoria da equipe do Tropiquim.
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