A China avança em um plano bilionário de Xi Jinping para reinventar sua indústria com robôs, e o país já opera mais de 2 milhões de máquinas em fábricas — mais que qualquer outro lugar do mundo.
A aposta ganhou força no fim de semana, quando o país sediou os Jogos Mundiais de Humanoides, enquanto em cidades como Hangzhou e Chengdu escolas técnicas e linhas de montagem preparam a próxima geração de robôs industriais e dos engenheiros que vão operá-los.
Robôs que constroem outros robôs
Em Chengdu, a fabricante CRP Technology produz braços robóticos há nove anos e afirma que um único equipamento pode ser programado para executar mais de 90% das tarefas repetitivas de uma fábrica. Na mesma linha, jovens engenheiros testam um protótipo criado para ajudar a montar outras máquinas — por enquanto, capaz apenas de ler um código QR.
Executivos da montadora de Hangzhou já admitem que a automação pode dispensar até os trabalhadores que hoje fazem a checagem final dos veículos. “É perfeitamente possível, e isso pode acontecer relativamente rápido. Nas áreas de estampagem, soldagem e pintura, já alcançamos praticamente 100% de automação”, diz a executiva Cao.
A pressa tem explicação demográfica: até 2035, mais de um terço da população chinesa terá mais de 60 anos, e o país deve perder cerca de 60 milhões de habitantes na próxima década. Como ainda há 120 milhões de pessoas empregadas na manufatura, uma transição rápida pode custar caro em empregos — um estudo do Fórum Econômico Mundial já projetou a eliminação de até 92 milhões de vagas no mundo até 2030 por conta da automação.
Formação técnica em massa
O Instituto Técnico de Hangzhou recebe alunos a partir dos 15 anos e reserva um andar de acesso restrito para quem vai atuar no processamento de terras raras, insumo estratégico na disputa com Washington. Para o professor Chen Tianyu, os formandos “não precisam se preocupar com emprego” e chegam a ser contratados antes de se formar — um alento num país onde um em cada cinco jovens tem dificuldade para encontrar trabalho.
No campo da inteligência artificial, empresas como DeepSeek e Moonshot vêm reduzindo a distância em relação aos Estados Unidos com modelos de código aberto, mesmo sob controles de exportação de chips avançados. Segundo analistas, a próxima fase da disputa será decidida por quem conseguir levar essa inteligência a milhões de máquinas — vantagem que a China já explora, já que décadas de parceria com multinacionais como a Apple ajudaram a montar o ecossistema industrial que hoje sustenta a fabricação de mais da metade dos robôs do mundo.