O Brasil deve enfrentar ao menos seis ondas de calor entre setembro e dezembro de 2026, segundo análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O número pode ser ainda maior, já que o último episódio de El Niño registrou nove ondas seguidas.
O fenômeno, batizado de Super El Niño, deve espalhar calor por todas as regiões do país ao mesmo tempo, com previsões de setembro apontando temperaturas até 3°C acima da média em quase todo o território.
Uma onda de calor não se resume a um dia quente isolado. Pela definição usada pelo Cemaden, o fenômeno ocorre quando as temperaturas máximas e mínimas ficam excepcionalmente acima do normal por pelo menos três dias seguidos, sem trégua entre o dia e a noite.
A intensidade agora prevista já era esperada: em maio, quando a probabilidade de retorno do El Niño superava 90%, especialistas do Cemaden ainda pediam cautela sobre a força do fenômeno — hoje descrito como um dos episódios mais intensos já registrados.
De fenômeno regional a evento nacional
A pesquisadora Mabel Calim Costa, doutora em ciências do Sistema Terrestre e responsável pelo levantamento, mostra que o comportamento das ondas de calor mudou nas últimas décadas. Nos anos 1980 e 1990, os episódios eram raros e concentrados principalmente no Nordeste. A partir de 2010, e com mais força depois de 2020, o quadro se inverteu: as ondas passaram a cobrir o país inteiro ao mesmo tempo, em um cenário para o qual, como o Tropiquim mostrou em junho, o Brasil ainda não tem uma política estruturada de adaptação.
O gatilho costuma ser a formação de áreas de alta pressão que ficam paradas sobre uma região por vários dias, bloqueando nuvens e chuva e prendendo no lugar uma massa de ar seco e quente. Para a especialista, o que mudou não foi esse gatilho em si, mas a temperatura de base do planeta, hoje mais alta — o que faz cada episódio gerar picos mais extremos do que geraria décadas atrás. O recorde da série histórica foi o período entre agosto e dezembro de 2023, com nove ondas de calor, mais que o dobro da média do país. Naquele ano, mais de 6 milhões de brasileiros enfrentaram ao menos 150 dias de calor extremo.
Seca, incêndios e alta nos alimentos
O avanço do calor também intensifica a seca. Segundo o Índice Integrado de Seca, produzido pelo Cemaden para o governo federal, 157 cidades brasileiras já estão em seca severa, a maioria no Norte e no Nordeste — os destaques são Tocantins, com 50 municípios na condição, e Bahia, com 18.
O risco de incêndios cresce junto. Levantamento do CPTEC/INPE, do Inmet e da Funceme aponta 560 municípios em alerta alto de fogo, somando mais de 3 milhões de quilômetros quadrados — acima de 35% do território nacional, com a área entre a Amazônia e o Pantanal como a mais vulnerável. Diante do cenário, o governo federal criou desde maio um gabinete de crise para o El Niño, com mais de 4,6 mil brigadistas mobilizados, alerta que o Cemaden já havia formalizado ao governo em maio.
Os efeitos devem chegar também ao bolso do consumidor: em um cenário de El Niño forte, alimentos in natura, como carnes e hortaliças, podem subir até 19,9% em até seis meses após os choques climáticos, enquanto a alimentação no domicílio avançaria 6,32%.