O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) enviou ao governo federal uma nota técnica alertando que modelos climáticos internacionais já indicam a possibilidade de um El Niño forte ou muito forte entre 2026 e 2027.
O documento foi encaminhado à Casa Civil e ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e aponta convergência entre modelos do ECMWF, da NOAA e do serviço meteorológico da Austrália para um cenário de aquecimento do Pacífico tropical.
Os próprios pesquisadores ressaltam, porém, que as projeções têm baixa confiabilidade no longo prazo e não devem ser lidas como previsão determinística.
A probabilidade de formação do El Niño no trimestre maio-julho de 2026 subiu para 82% segundo o Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA — ante 61% registrado em abril. A agência americana elevou essa estimativa na semana passada, e o número é citado diretamente na nota do Cemaden como referência para a avaliação de risco.
A chance de o fenômeno persistir até o trimestre dezembro-fevereiro de 2027 foi estimada em 96%. O índice Niño-3.4, principal referência para monitorar o ENOS, ficou em +0,4°C na leitura mais recente — ainda em território neutro, mas com aquecimento já registrado nas regiões vizinhas do Pacífico.
O que seria um Super El Niño
O documento define como Super El Niño um evento com anomalias acima de 2°C na região Niño 3.4 do Pacífico. Algumas simulações recentes do ECMWF chegaram a indicar valores próximos de 3°C — acima do limiar para classificar eventos muito fortes. Mesmo assim, nenhuma categoria de intensidade avaliada pela NOAA (fraco, moderado, forte ou muito forte) ultrapassa 37% de probabilidade nas projeções atuais. Nenhum cenário pode, portanto, ser tratado como mais provável que os demais.
A barreira que limita os modelos
Projeções iniciadas em maio perdem confiabilidade rapidamente por causa da chamada barreira de previsibilidade do sistema oceano-atmosfera. O período entre março e maio é historicamente marcado por uma transição natural no Pacífico que dificulta a leitura dos sinais do El Niño e da La Niña. Já em abril, a Organização Meteorológica Mundial havia apontado essa mesma limitação técnica ao avaliar a possibilidade de um El Niño forte a partir de maio de 2026.
A nota do Cemaden também critica notícias que projetam secas severas ou chuvas catastróficas no Brasil: segundo os pesquisadores, essas afirmações não são sustentadas por dados científicos confiáveis neste momento e podem distorcer a comunicação pública sobre o tema.
Caso o cenário se confirme, o Brasil pode enfrentar impactos semelhantes aos registrados durante o El Niño de 2023/2024. O Cemaden identifica padrões regionais distintos, com efeitos opostos entre o Norte e o Nordeste, de um lado, e o Sul do país, de outro.
Rio Grande do Sul concentra o maior risco hidrológico
O estado aparece na nota com o chamado sinal mais robusto de aumento de risco. O documento aponta maior possibilidade de enchentes, inundações, enxurradas e deslizamentos — especialmente na Serra Gaúcha, no Planalto Meridional e na região de Porto Alegre. Santa Catarina e Paraná também integram a zona de risco elevado de chuvas extremas, com variabilidade regional mais alta.
No Norte e no Nordeste, a tendência indicada é de redução das chuvas, aumento das temperaturas e agravamento das secas. Combinada ao aquecimento global, essa dinâmica amplia o risco de incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal — os anos de 2023, 2024 e 2025 já registraram recordes de calor e maior frequência de ondas de calor no país.
Nas conclusões, os pesquisadores do Cemaden reforçam que a análise não é determinística e deve orientar monitoramento, preparação e planejamento antecipado. As projeções tendem a ganhar mais precisão a partir de junho, quando a barreira de previsibilidade começa a recuar.
