Política

Sem dinheiro para pagar multa, pessoas em situação de rua ficam presas além do prazo legal

Estudo do CNJ com a PUC-SP revela subnotificação e falhas na reintegração de egressos do sistema prisional
Sede do CNJ em Brasília, símbolo do sistema que mantém presos sem dinheiro para multa além do prazo legal

Uma pesquisa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) divulgada nesta quinta-feira (27) revela que pessoas em situação de rua permanecem presas por mais tempo do que a lei permite, simplesmente por não terem dinheiro para pagar as multas impostas pela Justiça.

O levantamento, feito em parceria com a PUC-SP, analisou dados de seis capitais — Porto Alegre, São Paulo, Cuiabá, Salvador, Brasília e Boa Vista — e mostra que penas de meses se transformam em anos de prisão para essa população vulnerável.

Penas que viram anos de prisão

O estudo do CNJ mostra a desproporção entre a pena prevista em lei e o tempo real de encarceramento. Para o crime de desobediência, cuja pena máxima é de seis meses, a média de permanência na prisão chega a seis anos e meio. Em casos de desacato, a pena máxima é de dois anos, mas a média observada quase alcança esse teto. Já para furto, o tempo médio de prisão ultrapassa um ano e três meses.

A raiz do problema, segundo o CNJ, está na impossibilidade financeira de quitar as sanções pecuniárias impostas pela Justiça. Sem condições de pagar, essa população — já em situação de extrema vulnerabilidade — acaba cumprindo penas muito além do que a legislação determina.

Subnotificação alarmante

O relatório também aponta uma falha grave nos registros oficiais. Dos 983.564 presos no Brasil, apenas 957 foram identificados como em situação de rua — 0,10% do total. Entre as 1.107.534 pessoas que passaram pelo sistema prisional nos últimos cinco anos, somente 1.168 receberam esse registro, 0,11%. Para o CNJ, os números são “irrisórios diante da realidade observada em campo, indicando subnotificação maciça e sistemática”.

O diagnóstico ecoa críticas que especialistas já haviam levantado ao modelo punitivo brasileiro: o sistema prisional, que custou R$ 9,9 bilhões só no primeiro semestre de 2025, falha em ressocializar e aprofunda vulnerabilidades em vez de reduzi-las.

Exceção positiva e recomendações

Nem todos os estados repetem o padrão de invisibilidade. O Acre teve o melhor desempenho da pesquisa, com “registros adequados e diligentes”. Em Rio Branco, 0,93% das pessoas presas e 2,46% das egressas são identificadas como em situação de rua — percentuais muito acima da média nacional.

Em São Paulo, o Tribunal de Justiça só passou a alimentar o sistema de registro a partir de outubro de 2025, pouco antes do fechamento da coleta de dados da pesquisa, em janeiro de 2026, o que impediu a formação de séries históricas mais robustas no estado.

Saída sem rede de apoio

O CNJ constatou que a saída do sistema prisional costuma ocorrer de forma abrupta, sem orientação, articulação com políticas públicas ou garantias mínimas de moradia, trabalho e documentação. As entrevistas indicam que essas pessoas seguem marcadas por estigmas sociais e institucionais mesmo após cumprirem a pena — o que o relatório chama de “penalidade prolongada”.

O diagnóstico reforça um ponto que já havia aparecido em outro levantamento do CNJ: a taxa de reincidência no sistema prisional adulto é o dobro da registrada no sistema socioeducativo, dado que veio à tona durante o debate sobre a redução da maioridade penal.

A Redação Tropiquim é responsável pela curadoria e edição do conteúdo do portal, sob direção editorial de Giulia Gigli. Reunimos o que importa no noticiário brasileiro e entregamos com clareza, contexto e um olhar que acredita no Brasil — sempre com curadoria e supervisão editorial humana. Cada publicação passa por critérios de relevância, precisão e atribuição de fontes.
Escrito com o apoio da inteligência artificial
Este texto foi gerado por IA sob curadoria da equipe do Tropiquim.
todos os fatos foram verificados com rigor.
Leia mais

Oposição supera base do governo em segmentação de anúncios no Senado

Lula descarta privatizar Correios e diz que dívida não preocupa

Flávio Bolsonaro aciona TSE contra Lula por entrevista no Alvorada

Produtora do Dark Horse, filme sobre Bolsonaro, pede socorro ao STF

CGU obriga AGU a detalhar dados de honorários de sucumbência

Comissão da MP das blusinhas é antecipada após reunião com Lula