José Flávio Costa, motorista de aplicativo de 58 anos, aguarda há oito meses uma resposta do INSS ao pedido de aposentadoria feito em novembro.
A cozinheira Erika Antônia Bonifácio, 38, está sem benefício e sem salário há seis meses, à espera de cirurgia na coluna. Maria Delene Oliveira, 52, esperou sete meses pela perícia médica e segue sem resposta do INSS.
Fila caiu 74%, mas espera de meses persiste
A fila de benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) recuou para 1,55 milhão de pedidos represados no fim de julho, ante 1,8 milhão em junho — o menor patamar em 21 meses, segundo o Ministério da Previdência Social. A pasta contabiliza uma redução de 74% desde o início do ano, movimento que ocorre após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prometer zerar o estoque de pedidos ainda em 2026.
Os números, porém, contrastam com os relatos de quem aguarda uma resposta. José Flávio pediu a aposentadoria em 24 de novembro de 2025 e, oito meses depois, segue trabalhando como motorista de aplicativo — chegando a ficar até 13 horas na rua — para pagar as contas enquanto o benefício não sai.
O caso de Erika ilustra outra face do problema: ela recebeu o auxílio por incapacidade temporária entre março e julho de 2025, teve a continuidade negada após perícia, recorreu à Justiça e voltou a receber o pagamento até maio deste ano — quando uma nova reavaliação encerrou o benefício outra vez.
Indeferimentos disparam enquanto fila encolhe
Enquanto o estoque de pedidos diminui, o número de benefícios negados também sobe. Em junho, os indeferimentos se aproximaram de 1 milhão, e no acumulado de 2026 a rejeição de pedidos cresceu 70% ante o mesmo período do ano passado — uma combinação que especialistas em Previdência chamam de “matemática que não fecha”, já que empurra parte dos segurados para a Justiça em busca do reconhecimento do direito.
Entre os pedidos mais rejeitados estão os benefícios por incapacidade — auxílio por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença), auxílio-acidente e aposentadoria por incapacidade permanente —, categoria que inclui os casos de Erika e Maria Delene.
O Ministério da Previdência Social afirma que quem discorda de uma decisão pode recorrer administrativamente e sem custos, em até 30 dias, junto ao Conselho de Recursos da Previdência Social. A meta oficial, no entanto, é zerar apenas o estoque de pedidos parados há mais de 45 dias — prazo que segurados como os ouvidos nesta reportagem já ultrapassaram há muito tempo, com esperas de seis, sete e até oito meses.