As facções brasileiras PCC e Comando Vermelho expandiram a atuação para cidades fronteiriças da Bolívia, como Guayaramerín, no norte do país.
Nas últimas semanas, essa expansão gerou uma onda de crimes que chocou os bolivianos: chacina de uma família, corpos decapitados e um assassinato com mais de 80 tiros em praça pública.
Entre janeiro e setembro de 2025, os homicídios no país saltaram de 325 para 774, segundo o Ministério do Governo, enquanto a fiscalização frágil ao longo do rio Mamoré facilita a entrada de criminosos.
Uma “pax mafiosa” que se rompeu
Moradores de Guayaramerín, cidade de 40 mil habitantes às margens do rio Mamoré, relatam que o controle migratório é praticamente inexistente. “Nunca ninguém revista” os passageiros que cruzam de lancha, diz o pedreiro aposentado Donald Somoza, de 75 anos. Ele afirma ter testemunhado, semanas atrás, o assassinato de um estrangeiro com mais de 80 tiros na praça central da cidade, em um suposto acerto de contas do narcotráfico.
O episódio integra uma sequência de crimes que já havia deixado nove mortos em cinco dias na região de Santa Cruz, no início de agosto, quando PCC e Comando Vermelho passaram a disputar abertamente rotas de tráfico. Para o pesquisador Joaquín Chacín, especialista em crime organizado, o fenômeno é “bastante novo” num “país muito seguro até alguns anos atrás”. Segundo ele, as facções antes operavam sob uma espécie de pax mafiosa tolerada pelo Estado — “isto se rompeu de alguma forma”.
A professora Ariana Roca, de 35 anos, que atravessa diariamente o rio vindo da cidade brasileira de Guajará-Mirim, diz notar mais crimes e reclama que “às vezes acontecem coisas até debaixo do nariz dos policiais”. Assaltos, sequestros e agressões também cresceram: o agente de câmbio Adhemar Zapata foi atacado duas vezes por assaltantes, a última no início de agosto — um dos suspeitos era brasileiro.
Governo lança plano de fronteira e planeja ponte com o Brasil
O governo de Rodrigo Paz, que encerrou 20 anos de administrações ligadas a Evo Morales e Luis Arce, culpa os antecessores pela expansão do crime organizado no país. Segundo o Ministério do Governo, 17 chefes de quadrilhas internacionais foram capturados desde novembro, início da gestão de Paz.
Na semana passada, o presidente lançou em Guayaramerín um plano de segurança para reforçar a presença policial nas fronteiras e ampliar a troca de inteligência com o Brasil — cooperação que já vinha sendo costurada desde março, quando Lula e Paz assinaram um mecanismo binacional contra tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Para Chacín, o reforço policial pode dissuadir a violência, mas o crime organizado só será enfraquecido se as investigações mirarem a lavagem de dinheiro e quem lucra com o esquema.
Paz também anunciou a construção de uma ponte ligando Guayaramerín ao Brasil, parte de um corredor viário que chegará ao Pacífico, no Peru. A obra anima moradores que dependem do comércio, mas também gera temor: “as quadrilhas, as máfias de roubo, podem atravessar” com mais facilidade, diz a vendedora Yestin Durán, 31. O próprio chefe de polícia local, coronel Johnny Rivas, admite que a violência “vai aumentar” e vai exigir mais efetivos. A expansão das facções na Bolívia é parte de um movimento mais amplo: o PCC, apontado pelo Wall Street Journal como o maior grupo criminoso das Américas, já redesenhava o mapa da violência dentro do próprio Brasil antes de avançar sobre os países vizinhos.