A Polícia Federal encontrou uma mensagem de WhatsApp que comprova que o ex-chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Marco Aurélio Santana, o Marcola, recebeu a minuta de um contrato para venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde.
O documento foi enviado pela empresária Roberta Luchsinger, amiga do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, que tentava fechar o negócio com a pasta — o contrato, porém, nunca chegou a sair do papel.
Ligação com o Careca do INSS
A Polícia Federal identificou a movimentação ao analisar os dados do celular de Roberta, apreendido no âmbito da Operação Sem Desconto. No início deste mês, a corporação já havia revelado que a empresária repassou dinheiro a Marcola — um valor que ele classificou como empréstimo pessoal já quitado, no montante de R$ 249 mil.
Marcola confirmou a interlocutores que recebeu a minuta do contrato. O caso se soma a outra investigação sobre o setor: mensagens obtidas pela PF mostram que o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, tentou vender produtos de canabidiol ao Ministério da Saúde entre o fim de 2024 e o início de 2025, por meio da empresa World Cannabis.
Em dezembro de 2024, funcionários do Careca compartilharam a minuta de um Termo de Referência prevendo a compra de 1,2 milhão de frascos de canabidiol, direcionada a quatro empresas. O arquivo não trazia valores, mas o preço de mercado do produto — entre R$ 400 e R$ 900 por frasco — indica que o negócio poderia superar R$ 500 milhões. Não há confirmação de que esse documento seja o mesmo recebido por Marcola.
O que dizem os investigados
Procurado, Marcola não se manifestou até a publicação desta reportagem. A defesa de Roberta Luchsinger disse que o processo corre em sigilo e não vai comentar o caso.
A defesa de Lulinha afirmou ter acesso apenas parcial aos autos e negou que Marcola tenha dado qualquer encaminhamento à minuta de venda de medicamentos ao governo federal. O advogado Marco Aurélio de Carvalho reforçou que o empresário é amigo de Roberta, mas não tem relação com os negócios dela.
O Ministério da Saúde negou qualquer discussão sobre a oferta do canabidiol na rede pública e afirmou que o produto sequer está incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS), o que impede a pasta de comprá-lo ou fornecê-lo.
O episódio é o mais recente de uma sequência de revelações que levaram o STF a autorizar a PF a investigar Lulinha por tráfico de influência na área da Saúde, um dos três inquéritos abertos contra o filho do presidente. Em março, Roberta chegou a pedir ao Careca do INSS que sumisse com os celulares após uma operação da PF — os mesmos aparelhos cujos dados agora revelam a minuta enviada a Marcola.