O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou na quarta-feira (5/8) que o governo federal já se prepara para os efeitos do El Niño, fenômeno que pode intensificar secas, enchentes e calor extremo no Brasil nos próximos meses.
Após reunião com 24 ministros e especialistas em Brasília, o presidente detalhou o plano de resposta e brincou sobre a força do fenômeno: “Se vier bravo, eu estou fervendo”.
Projeções indicam El Niño forte a partir de setembro
Segundo Lula, o fenômeno deve ganhar força entre setembro e novembro, período de maior preocupação do governo. Modelos do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) apontam 98% de chance de um El Niño moderado, 80% de probabilidade de um evento forte e 22% de chance de atingir a categoria ‘super’. Os efeitos já eram sentidos antes mesmo da reunião ministerial: o Rio Grande do Sul foi atingido por chuva intensa, granizo e tornados, e um dia antes do encontro, especialistas confirmavam que o Super El Niño já favorecia tempestades severas e inundações no Sul do Brasil.
Apesar dos números, o presidente reconheceu a incerteza sobre a intensidade do evento e apelou à fé: “A gente tem que torcer para que Deus nos ajude e que ele não venha causar tanto prejuízo ao Brasil”.
A intensidade prevista tem explicação científica. Segundo o professor Ángel Adames, do Departamento de Ciências Atmosféricas e Oceânicas da Universidade de Wisconsin-Madison, o enfraquecimento dos ventos alísios — que sopram de leste para oeste no Pacífico — reduziu o afloramento de água fria na costa do Peru e do Equador, acelerando o aquecimento do oceano. Somado ao aquecimento global, o resultado é um evento que especialistas já descrevem como um dos mais intensos das últimas décadas. “Os impactos continuarão sendo sentidos em 2027. Aliás, os piores impactos irão ocorrer no próximo ano”, alertou Adames à BBC News Mundo.
Para o Brasil, meteorologistas preveem efeitos distintos por região nos próximos meses. No Sul, a probabilidade de chuvas intensas e temporais é maior, com risco de ventos fortes, granizo e alagamentos. No Sudeste e no Centro-Oeste, a previsão é de calor acima do normal e baixa umidade do ar. No Norte e no Nordeste, a tendência é de menos chuva, favorecendo o avanço das queimadas — e a redução da vazão dos rios pode comprometer a geração hidrelétrica na região.
Governo reforça estrutura de combate a incêndios, apoio social e segurança hídrica
Para enfrentar o cenário, o governo federal ampliou a frota de helicópteros, aviões e veículos usados no combate a incêndios florestais e aumentou o número de brigadistas em parceria com estados e municípios. A Defesa Civil e a área da saúde também foram mobilizadas, além da compra de 350 mil cestas básicas destinadas a famílias afetadas pelos efeitos do fenômeno.
Como parte do pacote de ações, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) aprovou a redução da geração de energia das hidrelétricas para armazenar mais água nos reservatórios e reforçar a segurança hídrica do sistema elétrico. O colegiado, que estima 70% de probabilidade de ocorrência do El Niño no segundo semestre, prevê ainda o monitoramento preventivo por agentes dos setores de geração, transmissão e distribuição de energia.
A urgência da mobilização tem respaldo em alertas internacionais. No fim de julho, a Organização Meteorológica Mundial já havia projetado o pico do El Niño exatamente entre agosto e outubro, o mesmo intervalo citado por Lula como o de maior risco. Já a NOAA, agência meteorológica dos Estados Unidos, havia divulgado em julho 81% de probabilidade de o fenômeno atingir a categoria ‘muito forte’ até dezembro, cenário que também motivou a resposta federal.
América Latina mobiliza planos contra o Super El Niño
O Brasil não está sozinho diante do fenômeno. Com efeitos que cientistas preveem se intensificando ao longo de 2027, outros países da América Latina também anunciaram medidas de emergência.
No Peru, a presidente Keiko Fujimori — empossada no final de julho — incluiu o El Niño entre suas “emergências imediatas” ao assumir o cargo. Ela anunciou o início imediato de desassoreamento em massa de rios, construção de defesas ribeirinhas e um plano nacional de prevenção para superar a “lógica da reação tardia”. “O clima não espera o tempo da burocracia”, declarou.
Na Colômbia, o ex-presidente Gustavo Petro, antes de deixar o cargo, decretou estado de emergência e destinou cerca de US$ 1,2 bilhão (R$ 6,1 bilhões) à gestão de riscos de desastres — medida parcialmente suspensa pelo Conselho de Estado. Ao tomar posse na sexta-feira (7/8), o novo presidente Abelardo de la Espriella prometeu “soluções urgentes” e alertou para uma “situação crítica” do setor energético, com reservas insuficientes e projetos estratégicos paralisados. Ele anunciou medidas para priorizar a energia térmica e diversificar a matriz elétrica, a fim de “reduzir a vulnerabilidade energética frente às secas no futuro próximo”.
No México, a presidente Claudia Sheinbaum ordenou o envio de alertas para celulares em localidades de risco e determinou a instalação de postos de proteção civil em todos os estados, com prioridade para os litorâneos do Pacífico. Bolívia e Equador também confirmaram equipes e planos de emergência para os próximos meses.