Um modelo do Rabobank projeta que os alimentos in natura podem ficar até 19,9% mais caros no Brasil caso o El Niño se confirme forte neste fim de ano. O pico dos preços deve ocorrer cerca de seis meses após os choques climáticos.
Carnes e hortaliças, mais sensíveis ao clima, reagem primeiro; já os industrializados sobem de forma mais lenta. Segundo a NOAA, a chance de um El Niño forte até dezembro chega a 80%.
Como o estudo mediu o impacto
O levantamento do Rabobank cruzou a evolução do Índice Oceânico Niño (ONI) — indicador que mede a temperatura da superfície do Oceano Pacífico — com o histórico de inflação dos alimentos consumidos em casa durante os principais episódios do fenômeno nas últimas décadas. Pela metodologia, oscilações acima de 0,5°C na média trimestral caracterizam um El Niño moderado, enquanto valores superiores a 1°C indicam um evento forte.
Cenários de preço
Em um El Niño moderado, os alimentos in natura subiriam 13,4% em 12 meses, somando 0,36 ponto percentual ao IPCA. Já em um cenário forte — o mais provável segundo a NOAA, com 80% de probabilidade para o fim do ano — a alta chega a 19,9%, adicionando 0,53 ponto ao índice. Semi-elaborados e industrializados sobem mais devagar, mas somados aos in natura podem acrescentar até 0,83 ponto percentual ao IPCA, com o efeito mais forte batendo cerca de seis meses após o choque climático.
Onde o aperto chega primeiro
Porto Alegre, Curitiba e São Paulo lideram as projeções de alta entre as capitais, por concentrarem maior consumo ou produção de alimentos in natura. Nessas regiões, o repasse aos preços tende a ser mais rápido e intenso; em outras localidades, o aumento é mais gradual, porém mais duradouro.
O que já se sabia sobre a safra
O estudo do Rabobank reforça um diagnóstico que consultorias e institutos meteorológicos já vinham traçando. Segundo Cesar Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do Itaú BBA, milho, café, frutas, laranja, cana-de-açúcar, trigo e arroz estão entre as culturas mais expostas, enquanto o leite pode sofrer conforme o volume de chuvas no Sul. O Inmet projeta ainda que a pecuária será uma das atividades mais atingidas no Centro-Oeste e no Norte, onde a estiagem reduz a água disponível para pastagens — efeito em cascata já detalhado pelo Tropiquim em julho, que mostrou como o encarecimento do milho pressiona também o preço da carne.
Nem toda região deve perder com o fenômeno: no Nordeste, o calor e a estiagem podem favorecer a colheita do feijão, e no Sul as chuvas acima da média tendem a beneficiar as culturas de inverno. O quadro é consistente com o que a NOAA já vinha sinalizando em julho, quando elevou para 81% a chance de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro. Duas semanas antes, outro levantamento, da MB Associados, projetou que a inflação da alimentação no domicílio pode chegar a 9,5% em 2027, com pico entre agosto e novembro — período que coincide com a fase mais crítica do fenômeno.