O Met Office, serviço meteorológico oficial do Reino Unido, alertou que o El Niño em curso no Oceano Pacífico deve ser o mais forte já registrado na história recente, com temperaturas do mar mais de 2°C acima da média.
No Brasil, o fenômeno segue ativo desde junho e deve permanecer até o início de 2027, com pico previsto entre outubro e novembro, segundo o CPTEC/Inpe.
A combinação com o aquecimento causado pelo homem torna “muito provável” que 2027 supere 2024 como o ano mais quente já registrado.
Anomalias sem precedentes desde 1950
As medições atuais mostram águas do Pacífico com anomalias acima de 2°C — patamar que, segundo o Cemaden já classificava como “Super El Niño” em maio, mas que as projeções do Met Office indicam que pode ser superado em dobro, chegando a 3°C ou até 4°C ainda em 2026.
“Devemos deixar claro que este é um evento sem precedentes”, afirmou o professor Adam Scaife, chefe de previsão de longo prazo do Met Office. “Nunca vi sinal de um El Niño tão intenso em nossas previsões.” Segundo o cientista climático Zeke Hausfather, do Berkeley Earth, o fenômeno pode ser o mais forte em até mil anos, embora seja impossível confirmar dados de períodos tão remotos.
Calor represado nos oceanos
Parte da intensidade vem do calor represado nas profundezas do oceano, cerca de 8°C acima do normal a 100 metros de profundidade em alguns pontos — reserva que, como já apontava o recorde de calor oceânico registrado pelo Copernicus em maio, funciona como combustível direto para o fenômeno.
Efeitos já sentidos no Brasil e no mundo
Os efeitos do El Niño já aparecem em diferentes regiões: a monção no sul da Ásia está abaixo do normal, a atividade de furacões no Atlântico caiu para apenas três tempestades nomeadas na temporada, e cresce o risco de seca na Austrália e de inundações no Peru, Equador e sul dos Estados Unidos.
No Brasil, o padrão se repete de forma desigual: enquanto o Sul deve receber chuvas acima da média — como já mostrou o ciclone-bomba que atingiu a região no início de agosto com ventos acima de 120 km/h —, o Norte e o Nordeste tendem a ter menos chuva, favorecendo o avanço das queimadas.
Com o pico do fenômeno previsto para outubro e novembro, o país ainda não conta com uma política permanente de adaptação climática para lidar com esse tipo de evento extremo. No plano internacional, a FAO já alertou que o fenômeno pode ameaçar dezenas de milhões de pessoas com insegurança alimentar aguda.