O governo brasileiro prevê uma nova escalada da crise diplomática com os Estados Unidos nos próximos dias ou semanas, segundo integrantes ouvidos pelo Planalto e pelo Itamaraty.
A tensão cresceu depois que o Brasil negou vistos a dois representantes americanos que participariam de uma missão ligada às eleições presidenciais de outubro.
Diplomatas brasileiros resumem o cenário em duas palavras: pressão máxima.
Vistos negados reacendem a crise bilateral
A decisão do Brasil de negar vistos a dois representantes dos Estados Unidos, que viriam ao país em missão relacionada ao processo eleitoral, é vista pelo Itamaraty como um gesto que dificilmente ficará sem resposta de Washington. O Departamento de Estado já negou que a missão barrada tivesse o objetivo de interferir nas eleições, mas a explicação não convenceu diplomatas brasileiros.
A expectativa no governo é de retaliações no campo diplomático, com novas restrições de vistos, e da manutenção no radar da possibilidade de acionar a Lei Magnitsky como instrumento adicional de pressão. Medidas econômicas e uma ofensiva política e de comunicação também não são descartadas.
A escalada diplomática ocorre em meio a uma disputa comercial paralela. Dias antes, o Brasil já havia acionado a Lei da Reciprocidade em resposta ao tarifaço imposto pelos Estados Unidos, o que amplia o número de frentes abertas entre os dois países.
Disputa eleitoral vira parte de um jogo regional
No Planalto, a avaliação é que cada novo episódio de tensão com Washington reforça a narrativa de perseguição política construída por Flávio Bolsonaro (PL), tratado como herdeiro de Jair Bolsonaro e candidato respaldado pela direita internacional. O efeito colateral esperado é alimentar desconfiança sobre o resultado das eleições, sobretudo em caso de derrota do bolsonarismo.
Diplomatas brasileiros enquadram o episódio dentro de um movimento mais amplo de fortalecimento da direita na América Latina, com atuação convergente entre Donald Trump, o presidente argentino Javier Milei e grupos conservadores da região. Segundo essa leitura, Milei também usa o confronto com Lula para desviar atenção das dificuldades internas de seu próprio governo.
Mesmo antes desse novo capítulo, o Planalto já evitava reações ao tarifaço de Trump que pudessem beneficiar eleitoralmente Flávio Bolsonaro em 2026, cálculo que segue orientando a resposta do governo brasileiro à pressão americana.