A União Europeia excluiu o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes e produtos de origem animal ao bloco, em decisão publicada nesta terça-feira (12) que surpreendeu governo e setor produtivo.
O motivo, segundo a Comissão Europeia, é a falta de garantias do Brasil sobre o controle do uso de antimicrobianos na pecuária. O veto começa a valer a partir de 3 de setembro de 2026.
Três ministérios — Agricultura, Comércio Exterior e Relações Exteriores — prometeram, em nota conjunta, reverter a decisão e manter o fluxo de exportações que já dura 40 anos.
Por que o Brasil foi excluído
Antimicrobianos são substâncias usadas para tratar e prevenir infecções em animais. A UE proíbe aquelas utilizadas também como promotores de crescimento — e cobrava do Brasil garantias formais de que esses compostos não estão presentes na cadeia produtiva exportada ao bloco.
Em abril, o Ministério da Agricultura proibiu a importação, fabricação e uso de avoparcina e virginiamicina, dois dos compostos no centro da disputa. O movimento, porém, não foi suficiente para satisfazer as exigências europeias dentro do prazo.
Leonardo Munhoz, pesquisador do Centro de Bioeconomia da FGV, lembra que as restrições não vieram de surpresa: a UE sinalizava essas exigências desde 2019. Para voltar à lista, o Brasil tem dois caminhos — proibir legalmente os demais antimicrobianos questionados ou garantir rastreabilidade total dos produtos exportados. A segunda opção é mais demorada e custosa, pois depende do monitoramento de toda a cadeia produtiva.
O veto sanitário surge menos de duas semanas depois de o acordo UE-Mercosul entrar em vigor de forma provisória — tratado que prometia eliminar tarifas sobre 77% dos produtos agropecuários brasileiros exportados ao bloco, expondo a distância entre avanços comerciais e entraves técnicos. No mesmo dia em que o veto foi anunciado, uma delegação do Parlamento Europeu desembarcava em Brasília para acelerar a implementação do acordo, reforçando que os dois lados ainda precisam resolver tensões estruturais na relação bilateral.
Argentina, Paraguai e Uruguai — os demais sócios do Mercosul — seguem autorizados a exportar para a Europa. A porta-voz da Comissão Europeia para a Saúde, Eva Hrncirova, confirmou que o Brasil poderá deixar de enviar ao bloco bovinos, equinos, aves, ovos, aquicultura, mel e invólucros enquanto não for reinserido na lista.
A UE é o terceiro maior destino da carne bovina brasileira em valor exportado — atrás apenas de China e Estados Unidos — e o segundo maior mercado para carnes em geral, segundo o Agrostat, do Ministério da Agricultura.
O setor já operava sob pressão antes do veto europeu: o Brasil havia consumido metade da cota de importação chinesa para 2026, expondo os frigoríficos a uma tarifa de 55% e a uma projeção de queda de 10% nos embarques anuais — e agora enfrenta restrições também no segundo maior bloco comprador.
A Abiec afirma que o Brasil segue plenamente habilitado e que o impedimento só ocorreria se as garantias não forem apresentadas até setembro. A ABPA prometeu prestar todos os esclarecimentos necessários à UE, destacando os sistemas de rastreabilidade e monitoramento veterinário do país. Ambas as entidades ressaltam que o Brasil exporta para mais de 170 países com base em protocolos sanitários reconhecidos globalmente.
No setor apícola, o presidente da Abemel, Renato Azevedo, sugeriu viés político na decisão: “Há uma grande pressão dos europeus para barrar produtos brasileiros depois do acordo do Mercosul”, disse. A Abepesca informou que não exporta para a UE desde 2016 e não é impactada pelo veto.
O chefe da delegação brasileira junto à UE se reúne com autoridades sanitárias europeias nesta quarta-feira (13) para discutir os próximos passos. A lista foi publicada, mas o veto só terá efeito legal após publicação no Diário Oficial da União Europeia.
