O Brasil enfrenta uma nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos, mesmo sendo, há décadas, fonte de superávit comercial para os americanos. Em 41 anos de série histórica, Washington lucrou com o Brasil em 26 deles.
O déficit acumulado pelo país soma 144 bilhões de dólares desde 1985. Só em 2025, o rombo brasileiro no comércio de bens chegou a 14,4 bilhões de dólares, mais que o dobro do ano anterior.
Questionado no Senado americano sobre o desequilíbrio, o indicado à embaixada dos EUA no Brasil, Daniel Perez, reconheceu o superávit expressivo do país, mas evitou justificar a nova sanção tarifária.
Quatro décadas de vantagem para os EUA
Entre 1985 e 1995, o Brasil chegou a registrar saldos positivos com os americanos. O cenário mudou no governo de Fernando Henrique Cardoso, com a ampliação das compras de aeronaves, veículos e equipamentos eletrônicos dos Estados Unidos.
A inflexão definitiva ocorreu em 2008, ano da crise financeira americana. Desde então, os EUA não voltaram a perder para o Brasil no comércio de bens, com recordes de 16,5 bilhões de dólares em 2014 e 15,75 bilhões em 2021.
No setor de serviços, a vantagem americana é ainda mais antiga: dura desde 1999. Em 2025, o superávit dos EUA nessa categoria somou 27,4 bilhões de dólares, o maior valor em 26 anos.
Argumento repetido em Brasília
O reconhecimento do superávit por Daniel Perez não é inédito: semanas antes, o vice-presidente Geraldo Alckmin já usava o superávit histórico dos EUA como argumento para tentar demover Washington do tarifaço.
Etanol e agronegócio no centro da disputa
A investigação da USTR mira o etanol, que o Brasil deixou de tarifar preferencialmente em 2017. Representantes da indústria americana defendem que a tarifa de 25% ajuda a recuperar espaço perdido no mercado brasileiro.
Para o historiador Leonardo Trevisan, o etanol é só a superfície de um problema maior: o crescimento do agronegócio brasileiro, que compete diretamente com produtores dos EUA.
Brasil já é o 2º mais tarifado
Com tarifa média de 18,2%, o Brasil ocupa a segunda posição no ranking de países mais taxados pelos EUA, atrás apenas da China — um salto que já vinha sendo antecipado como possível diante do avanço das sanções.
Apesar do desequilíbrio histórico, o país tem reduzido sua dependência do mercado americano: a fatia dos EUA na pauta exportadora brasileira caiu de 19% em 2005 para 9,4% no primeiro semestre de 2026, com a China assumindo a liderança.
