O economista Joseph Stiglitz, ganhador do Nobel de Economia, afirmou à BBC News Brasil que as tarifas dos Estados Unidos contra o Brasil punem a busca do país por independência digital e financeira, simbolizada pelo Pix.
Para o professor da Universidade Columbia, os benefícios do sistema de pagamentos brasileiro superam os custos impostos pelo governo de Donald Trump. Ele classificou as justificativas americanas como uma farsa desonesta.
Pix como alvo das tarifas
Segundo Stiglitz, Washington “não gosta da ideia de que o Brasil tenha seu próprio sistema de pagamentos, independente da Visa e da Mastercard” e usa as tarifas para defender interesses corporativos americanos. A disputa nasceu de uma investigação do USTR baseada na Seção 301, que listou o Pix como um dos seis pontos de atrito com o Brasil — motivo pelo qual o ministro Dario Durigan já havia pedido racionalidade a Washington.
O Nobel também rebateu as justificativas ligadas ao combate ao trabalho forçado, chamando-as de uma “farsa desonesta”. Ele apontou que a China, principal destino de produtos associados a essa prática, recebeu aumento tarifário menor que o do Brasil, o que evidenciaria a motivação política por trás da medida.
Stiglitz também citou o apoio de Trump a Jair Bolsonaro como pano de fundo político do conflito comercial, associando o episódio de 8 de janeiro de 2023 à tentativa de romper a transição pacífica de poder.
Impacto limitado e fortalecimento da China
Para o economista, o efeito das tarifas sobre a economia brasileira deve ser pequeno, já que boa parte das exportações do país são commodities facilmente redirecionadas a outros compradores. Ainda assim, a escalada chegou a colocar o Brasil na 2ª posição no ranking de países mais taxados pelos EUA, atrás apenas da China.
Stiglitz argumenta que a estratégia tarifária de Trump enfraquece a posição global dos Estados Unidos e fortalece a influência da China, país que classificou como mais estável e mais aderente ao Estado de Direito nas relações internacionais. Ele não é o único Nobel a defender o Pix: dias antes, Paul Krugman já havia argumentado que oferecer um meio de pagamento mais barato e eficiente não configura prática comercial desleal.
O economista também previu que as novas tarifas terão de ser reembolsadas pelos EUA, assim como ocorreu com as medidas anteriores declaradas ilegais pela Suprema Corte americana.