O governo dos Estados Unidos incluiu o Brasil, nesta quinta-feira (13), em uma lista de mais de 40 países acusados de ajudar a China a driblar tarifas de importação por meio do chamado transbordo comercial.
Segundo relatório divulgado pela Casa Branca, o país foi classificado no nível 2, categoria de integração econômica significativa com cadeias de suprimento chinesas, ao lado de Indonésia, Malásia, Tailândia, Turquia e Vietnã.
Como funciona a lista de risco
O relatório da Casa Branca divide os países em três níveis de ligação comercial com Pequim. O nível 1 reúne economias como Canadá, União Europeia, Índia, Israel, Japão, México, Coreia do Sul e Taiwan, responsáveis pelos maiores volumes absolutos de transbordo, embutidos em fluxos comerciais amplos e legítimos.
Já o nível 2, no qual o Brasil está incluído, combina volumes significativos de redirecionamento de mercadorias com integração mais profunda em cadeias de abastecimento, plataformas de manufatura, sistemas logísticos ou canais regionais ligados à China. Fazem parte do grupo também Indonésia, Malásia, Tailândia, Turquia e Vietnã.
Peter Navarro, autor do documento, afirmou que os problemas mais graves de evasão tarifária estão concentrados em outras nações, e não no Brasil especificamente. Ainda assim, ele alertou que países como a Índia também podem recorrer à prática para escapar de novas tarifas — motivo pelo qual os próximos acordos comerciais do governo Trump devem incluir cláusulas específicas de punição ao transbordo.
A prática de redirecionar produtos chineses para montagem ou embalagem em terceiros países já é observada por especialistas desde a guerra tarifária iniciada em 2018, no primeiro mandato de Trump. As tarifas impostas neste segundo mandato, aliás, já enfrentavam contestações judiciais antes mesmo deste novo relatório — 25 estados americanos entraram com ação na Justiça para barrar a cobrança, alegando que o presidente extrapolou sua autoridade legal.
Bilhões em jogo e fiscalização com IA
Segundo estimativas do relatório, baseadas em dados governamentais e do setor privado, entre US$ 34,2 bilhões (R$ 177,5 bilhões) e US$ 303 bilhões (R$ 1,572 trilhão) em mercadorias são redirecionados anualmente para escapar das tarifas americanas sobre produtos chineses.
Para conter o problema, a Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP) passou a testar inteligência artificial em um programa piloto de rastreamento. Quando um importador é flagrado falsificando a origem de um produto, as tarifas podem ser cobradas retroativamente, cobrindo cerca de um ano de operações.
Apesar da ofensiva tarifária de Trump contra dezenas de países, o déficit comercial americano segue alto: os Estados Unidos acumulam US$ 371 bilhões (R$ 1,925 trilhão) negativos neste ano, valor cerca de US$ 189 bilhões (R$ 980,9 bilhões) menor que no mesmo período do ano passado — indício de que as tarifas têm reduzido parcialmente as importações, ainda que às custas de pressão inflacionária interna.