Os Estados Unidos acusaram o Brasil de usar trabalho forçado na produção de gado e propuseram tarifas adicionais de 12,5% para países que não coíbem a importação de mercadorias fabricadas sob essas condições.
A medida, anunciada nesta terça-feira (2), isenta a carne bovina — justamente o produto que o documento americano coloca no centro das acusações contra o agronegócio nacional.
A investigação identificou 60 países, entre eles Brasil e China, como insuficientes no combate ao trabalho forçado. O relatório dedica um capítulo específico à pecuária brasileira e a associa diretamente à perda de competitividade americana no mercado chinês.
Acusação com argumento comercial embutido
O documento que embasa a proposta americana é direto: “Está amplamente documentado que trabalho forçado é utilizado na produção de gado no Brasil”. Em seguida, o relatório acumula dados de exportação para sustentar a tese de prejuízo ao produtor americano — transformando uma denúncia de direitos humanos em peça de política comercial.
Entre 2015 e 2025, as exportações brasileiras de carne bovina congelada para os mercados investigados praticamente dobraram, enquanto as americanas cresceram apenas 21% no mesmo período. Em 2025, a carne do Brasil chegava ao importador por US$ 2,40 por unidade — 41% mais barata que a americana, cotada a US$ 4,20.
O relatório reconhece que nem toda a carne importada da China a partir do Brasil foi necessariamente produzida com trabalho forçado, mas conclui que “a prevalência dessa prática sugere fortemente que pelo menos parte dessas importações foi produzida total ou parcialmente com trabalho forçado”.
A China é o maior comprador da carne bovina brasileira e o mercado central da disputa descrita no documento. Antes mesmo de junho, o Brasil já havia consumido metade da cota disponível no país, com frigoríficos acelerando embarques para fugir da tarifa de 55% imposta pelos chineses.
Contradições que o próprio relatório admite
O documento americano reconhece que outros fatores também explicam a desvantagem dos produtores dos EUA. O rebanho bovino americano estava em maio no menor nível em 75 anos — situação que levou Trump a assinar decretos para ampliar importações —, e esse fator também pesou na perda de espaço americano no mercado chinês.
Ainda assim, os EUA concluem que, se houvesse uma proibição efetiva à importação de produtos ligados ao trabalho forçado, o país “provavelmente teria registrado maiores vendas, receitas e exportações de carne bovina para a China, mantidas as demais condições constantes”.
O governo brasileiro já antecipava a medida: nos bastidores, integrantes do Executivo avaliavam que a sobretaxa seria somada aos 25% já vigentes e preparavam uma defesa técnica com dados concretos sobre o combate ao trabalho escravo no país. A proposta ainda precisa ser formalizada. A reportagem está em atualização.
